Discursos invisíveis

Julho 3, 2006 · Deixe um comentário

A dicotomia Bem/Mal, Ordem/Desordem, era muito utilizada nas linguagens do Estado Novo. Neste período, os cartazes eram, por um lado, bastante imediatos, com palavras de ordem fortes e determinadas; e por outro, as ilustrações eram narrativas e faziam uso de elementos simbólicos muito queridos ao regime, como os elementos religiosos, nacionalistas, rurais… As mensagens são claras: o Estado Novo resolve os problemas segundo uma ordem racional, política, técnica e económica. José Gil, no seu livro, Salazar: a retórica da invisibilidade, fala no discurso salazarista como narrativa da salvação, dizendo que as imagens construídas são nuas no sentido em que estão separadas da linguagem verbal que lhe correspondem. Ao mesmo tempo que o discurso salazarista apelava para a cura do país, também se proponha a renová-lo, a modernizá-lo. Por isso, António Ferro, sabia que uma imagem de modernidade formal era importante na transmissão da Política do Espírito. Assim, chamou para materializar este projecto as figuras marcantes do Modernismo Português.

O discurso do Estado Novo assentava numa lógica de cura, o país tinha problemas que eram resolvidos com rigor e racionalidade. De alguma forma, o Modernismo foi usado neste sentido. Se quisermos analisar a estética do Estado Novo sobre a direcção de António Ferro, de um ponto de vista meramente formalista, e quando comparado a períodos posteriores (pós- 25 de Abril), podemos concluir que, a produção gráfica deste período é bastante emblemática e são exemplos paradigmáticos. Ainda hoje, há um enorme saudosismo em relação a objectos gráficos deste período. Porquê? 

É estranho: se por um lado lidamos muito mal com este período da nossa história (temos medo de citar, de escrever, com medo de sermos mal interpretados politicamente) por outro lado há em nós um certo enternecimento quando nos deparamos com objectos de uma casa portuguesa adormecida num Portugal rural e saloio.
“Não é possível construir de uma imagem nacional asséptica, à margem de toda a hipótese ideológica, ou, se se prefere, de qualquer preconceito explícito. Mas, justamente por isso, nada é mais necessário do que rever, renovar, suspeitar sem tréguas as imagens e os mitos que nelas se encaram inseparáveis da nossa relação com a pátria que fomos, somos, seremos, e de que essas imagens e mitos são a metalinguagem onde todos os nossos discursos se inscrevem” – Eduardo Lourenço

Fala-se na impossibilidade de criarmos imagens sem ideologia, e como produzimos imagens fragmentadas sobre nós (indíviduos e país). Fragmentamos a identidade nacional, ou sobrevalorizando certas partes, mediante os projectos com que nos deparamos. Menosprezamos grande parte da nossa produção ao mesmo tempo que enaltecemos e importamos outras, muitas vezes pela única razão de serem nossas ou por serem internacionais. Isto poderá justificar-se com um “desenraizamento histórico singular que só na aparência é negado pela exaltação sentimental com que nos vivemos enquanto portugueses” – Eduardo Lourenço.

Olhando para as imagens deste período podemos pensar na relação entre design e vanguarda. Os melhores exemplos deste período levam-nos a pensar o quanto o salazarismo era uma empresa com uma imagem sólida e bastante convincente. Uma empresa de sucesso. Uma estrutura forte que usava como principal forma de manipulação e, segundo José Gil, o silêncio. Nem mais. Parece contraditório. Salazar raramente se retratava nas inúmeras imagens produzidas nesta época. A construção das mensagens vinha maioritariamente de jogos de significados, que apesar de pobres na simbologia, porque repetitivos ou demasiado previsíveis, eram de facto complexos na estrutura de leitura. A leitura contrapunha dois cenários, Bom/Mau, perguntando ao espectador qual preferia. A desgraça ou a salvação? O caos ou a solução? A solução/ resposta surgia de imediato. A  magem nua que se aloja no inconsciente, não é imagem visível, conduz a um tipo de pensamento e por sua vez directiva de acção muito imediato e “esclarecido”. Ainda hoje, e também de uma forma inconsciente, está alojada em muitas formas de comunicação e de construção de narrativas/linguagens gráficas, tornando visíveis discursos invisíveis.

Categorias: 25 Abril · Tese
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