ser do contra

Rick Poynor, escreve The time for being Against, este texto serviu de base a uma conferência da AIGA sobre história e crítica do design. Escreve ele que, em conversas com designers e colegas, frequentemente lhe dizem que a época para se ser do contra já era, que isso é algo que nos deixa infelizes e cultiva muitas inimizades, a vida é muito curta para perder tempo com coisas tão negativas. Esta conversa também nos é familiar. Sim, é verdade, ser do contra nunca fez bem a ninguém. As contra-indicações são penosas, causam mal estar. Os discursos do “diz bem” são cómodos, fáceis de escrever e evitam muitos aborrecimentos, deixando toda a gente satisfeita:  

“Ao secretariado de propaganda nacional cabem outras funções e é dentro delas que tem que ser julgado a sua acção a favor dos artistas portugueses. Não somos pura e simplesmente um orgão animador. Não consagramos: estimulamos.” – António Ferro.

 

Este texto de António Ferro, é pois exemplo de um texto “tal como a liberdade, a submissão é impossível sem este suporte ou, se quisermos, este excesso mítico, onde tiranos e revolucionários extraem instrumentos para a sua acção, ainda que num caso ela seja opressora e no outro possa ser libertação.” (Diogo Pires Aurélio). O período da libertação a que se refere o excerto anterior, foi acima de tudo, uma oportunidade de cidadãos comuns poderem habitar as paredes das ruas com a sua revolta e a sua vontade de mudança. Por isso, muitos dos exemplos que escolhemos para ilustrar este documento, sejam precisamente de autores anónimos.

Em comum, os cartazes e a linguagem visual do período pré e pós 25 de Abril, possuem uma construção essencialmente simbólica que se constrói com base no reconhecimento generalizado desses elementos populares. Naturalmente, porque apesar das mensagens serem opostas e o contexto social muito diferente, seria complicado arrancar de um momento para o outro esse passado, e alterar por completo todo o carácter figurativo até então assimilado. O cartaz de João Abel Manta em que um elemento do povo troca de posição e se confunde com um elemento militar, é exemplificativo da utilização simbólica dos elementos: a arma do militar é trocada com o instrumento de trabalho do camponês. Outro exemplo, de Sérgio Guimarães, onde uma criança coloca um cravo no cano de uma arma, sendo este um dos primeiros exemplos do uso da fotografia produzida, cuja acção se tornaria mito da revolução. Um outro cartaz emblemático, da autoria de Vespeira, representa um jogo, semelhante ao jogo do galo, mas aqui um jogo de linguagem entre POVO/VOTO. Este é um cartaz essencialmente tipográfico dizendo: “não o jogo da reacção, vota pela Revolução” – incita a participação activa no jogo. Sebastião Rodrigues assina também um cartaz onde a bandeira portuguesa se intersecta formando um V de Vitória, dizendo depois, simplesmente, 25 de Abril. Se pensarmos nestes exemplos todos, percebemos que os cartazes partidários que se seguiram são essencialmente não-figurativos, de rápida apreensão e essencialmente tipográficos. Nos cartazes não havia (como actualmente acontece) distinção ideológica implicíta e eram inclusivé bastante pobres tanto na concepção gráfica como na mensagem transmitida.Parecia que o entusiasmo inicial se tinha esmorecido e era tempo agora de se falar de coisas sérias por isso não havia espaço para mensagens menos óbvias. Gradualmente a fotografia é apropriada de tal forma a ir arrumando as ilustrações de artistas plásticos de Abril. Excepção feita para os cartazes da UDP, muito característicos pelo uso de técnicas de baixo custo como o stencil.

Por tudo isto, ser do contra pode passar por formas de fazer, de produzir. Na forma como fazemos, como produzimos linguagens, pode estar a resistência.

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