A impressão

cartaz

Na minha turma de design haviam alguns alunos, trabalhadores estudantes, que frequentemente comentavam na sala de aula acontecimentos da sua vida laboral: um trabalho mal impresso, um cliente mais imaginativo, como tinham resolvido esta ou aquela situação. Como os projectos de design gráfico eram sempre muito livres e com poucas imposições, os alunos podiam sugerir o que pretendiam fazer. Muitos optavam pelo cliente “fictício” mais ou menos realista. Outros ainda aproveitavam para trazer para avaliação muitos dos trabalhos realizados dentro de um contexto “profissional” e bem “real”. Lembro-me de uma colega de turma, designer freelancer, aproveitar as aulas como lamento dos episódios laborais com frases como: “quando vocês trabalharem vão ver como elas vos mordem” ou então “isso é tudo muito bonito e acho muita graça a pessoas idealistas, mas espera até trabalhares…” A vontade era acabar rapidamente o curso para finalmente viver-se no mundo com trabalhos a “sério”.

Enquanto estudantes só imprimimos dois trabalhos em offset: uma agenda escolar no segundo ano e que servia de agenda da escola de professores e alunos (projecto que acabou nesse ano) e um cartaz para o ciclo de conferências do Comunicar Design 05. Sempre que pretendiamos um trabalho com melhor acabamento tinhamos a vantagem de ter uma oficina de serigrafia na escola, mais ou menos à disposição. Lembro-me que na véspera de ir à gráfica imprimir o cartaz, estava eu no 5º ano, mal dormi a pensar se teria feito tudo bem, se não me tinha engano ou esquecido de alguma coisa. Lá fomos à Batalha, em excursão, à gráfica onde trabalhava um dos nossos colegas de turma. Quando viemos para casa, depois de um dia inteiro na gráfica a chatear toda a gente, eu já trazia uma série de exemplares que exibia orgulhosamente. Depois colamos o cartaz na sala de nossa casa e durante semanas lá olhava feliz para a impressão offset, prova física de meses de dúvidas.

Depois veio o trabalho… Para as gráficas, que agora eram de grandes dimensões, lá mandava semanalmente o texto “segue em anexo ficheiro X, obrigada e bom trabalho”. Dos trabalhos impressos quando os via já tinham passado semanas ou meses… Muitas vezes via-os primeiro nos locais, expostos. Chegavam às vezes por correio, dava-se uma vista rápida até serem guardados num piso relativamente elevado, umas escadas que não davam a lado nenhum, apenas a uma estante com alguns livros e o arquivo com os anos de história do atelier. Nestas coisas diz-se o habitual: não há tempo, é a velocidade e o stress… Mas não seria só isso. Até porque essa também me parece a habitual desculpa do mundo empresarial, o tempo, sempre o tempo… 

Isto tudo para concluir que ainda não dou razão à minha colega de turma que com insistência nos dava conselhos sobre “o trabalho” e a vida depois da escola. Discurso esse que curiosamente, também ouvi pelo Juri dos jovens criadores 06 a respeito dos projectos escolares. Os trabalhos que realizamos na escola, sem clientes, sem honorários, sem despesas e tempo para balançar no orçamento, são trabalhos que não merecem ser minorizados. Muito pelo contrário. São trabalhos nos quais depositavamos muitos sonhos sem receber nada em troca. E como pode haver análise critica ao trabalho dos designers que não depositam “tempo” para contar a sua história para além dos prémios e dos projectos de sucesso? Às vezes uma boa (ou má) impressão não conta tudo…

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2 responses to “A impressão

  1. Pois…o velho abismo entre ‘a escola’ e ‘o mundo real’…acho que todos conhecemos esse folclore, entre histórias e comentários jocosos, muitas vezes (paradoxalmente) proferidos por aqueles em posição de poder na vida académica, que acaba por ajudar a cavar esse mesmo fosso e a tornar o mito na realidade, um espelho que se reflecte a si mesmo. Eu confesso que caí nessa. Durante muito tempo, como muitos, participei no jogo, preocupei-me em fazer o trabalhinho, preencher os requisitos e venha a próxima tarefa. O resultado só podem ser trabalhos tímidos, auto-contidos em pequenas bolsas artificiais (disciplinares ou não) que, no limite, acabam fechados em gavetas de gabinetes de professores.

    É de facto possível ver para lá deste comportamento padrão, vocês são um bom exemplo disso, e trabalhar com uma noção mais alargada do que é a prática do design, e da função da escola na preparação dos alunos. Não sei se serei demasiado pessimista, mas parece-me que isto raramente é encorajado, que existe uma espécie doentia de medo de ultrapassar as paredes na escola, e pensá-la como prática, não apenas teoria, preparação para uma integração futura no mercado. No fundo, medo de encarar a escola como A REALIDADE, a realidade presente, não uma antecâmara da vida-a-sério…de dissolver fronteiras, de formar ligações, de expor, ser criticado e crescer com isso.

    Parece-me que a distinção ‘óbvia’ para tantos entre a realidade e a academia (o experimental) advém de um modelo de escola de hierarquias entrincheiradas em que os alunos aprendem, os professores ensinam, a escola avalia, e se percorrem percursos pré-definidos, com a promessa de uma recompensa final no emprego como a cenoura que incita o burro a seguir caminho, sem sequer saber bem para onde se dirige. Sufocante.

    Também acredito que é possível mais e melhor, uma prática que vê para além do orçamento e do prémio, que isso não é uma fantasia ingénua, que é possível definir outras prioridades. Pelo menos por enquanto!

  2. Reencontrei isto agora. Aqui fica, Experimental Jetset:

    06. Any advice for students?

    A good advice for students would be this: please, don’t believe that there is a ‘real world’ outside of school. The older we get, the more we realize that there is no such thing as ‘the real world’ at all.

    Or maybe we should put it like this: there is no difference between the ‘unreal world’ and the ‘real world’. Everything is the real world. Everything is a context in itself. School is part of the real world.
    When we were students, we still thought that there was a ‘real world’ waiting outside of school. In a way, we ruined our school experience because of this. We couldn’t wait to graduate, to get into ‘the real world’. After we graduated, we realized our mistake. There is no ‘real world’ outside of school. The context outside of school is not more real than the context inside of school.

    A good designer is constantly aware of the context he/she is in. And it is our experience, as teachers, that the best students are the students who realize that school is a very real world, a context in its own right. We wish we had that insight when we were still students.

    http://www.experimentaljetset.nl/archive/fillstroke.html

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