Category Archives: Cartas abertas

Falar em público

José Tavares
José Tavares, 1976, Arquivo Diário de Lisboa

Há uns anos atrás fizemos um manifesto anónimo para o Caldas Late Night. Viviamos tempos de insatisfação e tinhamos muita vontade para fazer alguma coisa. Tudo aconteceu muito rápido—tal era a nossa urgência—em poucos dias fizemos e colamos cartazes fotocopiados pela escola e pela cidade. O que nos levou a isso hoje já pouco importa, mas  escolhermos uma forma anónima para o fazer levou-nos a grandes discussões internas e externas. Não o fizemos por falta de coragem. Se há coisa que sempre me irritou foi a abstenção, o “podia dizer o que penso mas não vale a pena”. Sempre conheci muitas pessoas com esta postura no meio universitário, e fora dele, demasiado comprometidas com a instituição, as amizades pessoais, a posição comóda e saloia de “parecer sempre bem”. Evitando a todo o custo as posições “marcadamente” políticas, o confronto, a tomada de posição… Depois, entre dentes, sussurram-se breves notas, entra-se em acordo dependendo da pessoa com quem se estabele o diálogo, mas sempre em privado. Por isso ter uma postura anónima nunca foi totalmente do meu agrado. 
Tempos depois, em conversa, alguém dizia que os cartazes colados nesse dia tinham sido feitos por membros da Associação de estudantes. Nessa altura, pude assumir claramente que tinha sido uma das autoras. Depois de terem havido inúmeros suspeitos, aquilo que me parecia óbvio nunca aconteceu—ser confrontada directamente com a pergunta “foram vocês?”.
A verdade não era apenas essa. É certo que tive medo das consequências do que disse e da forma como o fiz, publicamente. Mas a razão principal do anonimato prendeu-se precisamente com facto de não querer associar aquele momento (da mensagem) a uma identidade específica, que facilmente poderia ser desvalorizada. No meio em que estavamos facilmente se faziam juízos de valor fáceis e preguiçosos sobre os alunos, antes sequer de os conhecerem melhor. Mais tarde percebi que isto não seria um mal exclusivo daquele contexto… 
Se o anonimato pode desvincular um trabalho de uma identidade, de um currículo mental, o que acontece na maior parte das vezes é ser entendido como um acto de pura cobardia. A mim sempre me agradou essa liberdade de pensar nas coisas para além de quem as diz ou quem as faz—pensar como fim em si mesmas—uma permissão do anonimato. Até porque eu não sou linear e às vezes saio do trilho… e afinal também somos contra generalizações.
Talvez por isso a crítica verdadeiramente honesta seja tão difícil, e neste sentido pouco corajosa, sem assumir os riscos. Comprometidos que estamos com relações sociais, estruturas, emprego, sabemos bem que as palavras têm pesos e consequências difíceis de suportar. Talvez seja também esta uma razão para que os designers escrevam tão pouco. Porque é difícil passar além da esfera confortável do convívio, da conversa de circunstância, da rede social das caras conhecidas. É-nos muito doloroso analisar o trabalho dos outros ao mesmo tempo que nos identificamos e sabemos que não somos melhores, mais capazes, mais acertivos… “Pelo sim pelo não” preferimos ficar pelo “razoável”, por aquilo que “não nos compromete”. 

Há uns anos atrás fizemos um manifesto anónimo para o Caldas Late Night. Viviamos tempos de insatisfação e tinhamos muita vontade para fazer alguma coisa. Tudo aconteceu muito rápido—tal era a nossa urgência—em poucos dias fizemos e colamos cartazes fotocopiados pela escola e pela cidade. O que nos levou a isso hoje já pouco importa, mas  escolhermos uma forma anónima para o fazer levou-nos a grandes discussões internas e externas. Não o fizemos por falta de coragem. Se há coisa que sempre me irritou foi a abstenção, o “podia dizer o que penso mas não vale a pena”. Sempre conheci muitas pessoas com esta postura no meio universitário, e fora dele, demasiado comprometidas com a instituição, as amizades pessoais, a posição comóda e saloia de “parecer sempre bem”. Evita-se a todo o custo as posições marcadamente políticas, o confronto, a tomada de posição. Depois, entre dentes, sussurra-se breves notas, entra-se em acordo dependendo da pessoa com quem se estabele o diálogo, mas sempre em privado. Por isso ter uma postura anónima nunca foi totalmente do meu agrado. 

Tempos depois, em conversa, alguém dizia que os cartazes colados nesse dia tinham sido feitos por membros da Associação de estudantes. Nessa altura, pude assumir claramente que tinha sido uma das autoras. Depois de terem havido inúmeros suspeitos, aquilo que me parecia óbvio nunca aconteceu—ser confrontada directamente com a pergunta “foram vocês?”.

A verdade não era apenas essa. É certo que tive medo das consequências do que disse e da forma como o fiz, publicamente. Mas a razão principal do anonimato prendeu-se precisamente com facto de não querer associar aquele momento (da mensagem) a uma identidade específica, que facilmente poderia ser desvalorizada. No meio em que estavamos facilmente se faziam juízos de valor fáceis e preguiçosos sobre os alunos, antes sequer de os conhecerem melhor. Mais tarde percebi que isto não seria um mal exclusivo daquele contexto… 

Se o anonimato pode desvincular um trabalho de uma identidade, de um currículo mental, o que acontece na maior parte das vezes é ser entendido como um acto de pura cobardia. A mim sempre me agradou essa liberdade de pensar nas coisas para além de quem as diz ou quem as faz—pensar como fim em si mesmas—uma permissão do anonimato. Até porque eu não sou linear e às vezes saio do trilho… e afinal também somos contra generalizações…

Talvez por isso a crítica verdadeiramente honesta seja tão difícil, e neste sentido pouco corajosa, sem assumir os riscos. Comprometidos que estamos com relações sociais, estruturas, emprego, sabemos bem que as palavras têm pesos e consequências difíceis de suportar. Talvez seja também esta uma razão para que os designers escrevam tão pouco. Porque é difícil passar além da esfera confortável do convívio, da conversa de circunstância, da rede social das caras conhecidas. É-nos muito doloroso analisar o trabalho dos outros ao mesmo tempo que nos identificamos e sabemos que não somos melhores, mais capazes, mais assertivos… “Pelo sim pelo não” preferimos ficar pelo “razoável”, por aquilo que “não nos compromete”.

“shut up and play your guitar”

1975, arquivo do Diário de Noticias

Querida amiga:

Uma vez li: mais vale uma glória falhada que mil misérias conseguidas. Sei que és muito mais sensata do que eu, continuo a admirar-te porque és inteligente, leal e porque me dás certezas no meio das incertezas. E como somos amigas, mais do que pessoas que trabalham juntas, quero dizer-te que acredito que as coisas vão melhorar, e mesmo que isso não aconteça, paciência… O nosso trabalho é que importa. Como dizia o outro: Respira e vai à vida… Bom ano!

Porque me esqueço da resposta


O Design é mais importante pelas coisas que torna possíveis ou por qualquer coisa que alcance em si mesmo?

Re;


[Re;] retirada do livro Elementos do Estilo Tipográfico, Robert Bringhurst, ed. Cosac Naify, 2005.

Hoje é dia de recordar


Caldas da Rainha, uma madrugada, Maio de 2004.

para o Bill 2

Querido Bill:

O que sinto por ti sempre foi uma relação de amor/ ódio, bem à maneira de todas as minhas grandes obsessões. Se fosses um livro serias um livro de Sebald. E eu gosto de Sebald.

Haviam dias em que te agradecia tudo o que sempre fizeste por mim. Dias em que tudo o que me dizias fazia sentido, mesmo que fosse para falar da tua ultima visita ao dentista, de novas tecnologias, de física ou matemática, de tipografia hebraica… Mas gostava disso, dos teus assuntos infindáveis para os quais ninguém tinha paciência. Eu às vezes tinha.

Tinha sempre esperança que tornasses a mudar os meus percursos e as minhas certezas… Fizeste-o algumas vezes e estou grata por isso.

Sempre gostei do teu sentido de humor, irónico e ácido. Gostava desse teu ar sabedor, experiente que contrastava com a minha inexperiência. Gostava quando me ensinavas coisas, quando me contavas histórias infindáveis. Às vezes até me esquecia que não gostava do teu cheiro (tu brincavas com isso e dizias que era melhor cheirar mal do que não ter cheiro). Sempre soubeste dizer as palavras certas nos momentos certos, eu, que não sou nada assim, sempre admirei essa capacidade nas pessoas.

Agora não sei bem quando te tornarei a ver, ou se alguma vez vou pensar de outra forma. A minha relação contigo sempre foi este vai e vem… e eu fui.

um beijinho grande

para o Bill 1

Querido Bill:

Este era o nome que secretamente te chamava porque me fazias lembrar o outro Bill, o Murray. Normalmente nunca gosto de chamar as pessoas pelos nomes, por isso invento sempre outros nomes para as pessoas, uns cómicos, outros maldosos– tu tiveste este entre muitos outros nomes que não vou nomear aqui.

Não gosto do teu ar cansado, sem paciência. Não gosto desse o teu mau cheiro, das oscilações de temperamento, da tua cobardia… Dizias muitas vezes que já pouco tinha a capacidade de te surpreender. E acho que, infelizmente, terias razão. Havia um tom amargurado quando falavas, como se já tivesses a certeza de tudo, como se mais nada houvesse para aprender. Não tinhas expectativas e as tuas certezas às vezes soavam a sentenças.
Eu tinha medo de me teres ditado uma sentença sem sequer me teres deixado ir a julgamento.

Outra coisa que me deixava sempre transtornada, é que nunca fui capaz de ter uma conversa sincera e honesta contigo. Nunca tive coragem para nada: para te interpelar, para te perguntar, para nada… Conseguias fazer com que ficasse calada nas tuas maiores insanidades. E foram algumas.

Terias concerteza, inúmeras justificações, eu também tenho as minhas. Mas isso não importa. A verdade é que sempre gostei muito de ti.

Um beijinho com saudades

A sua mensagem foi enviada

Ex Sras e Srs, de uma Empresa de comunicação nacional que procura Designer Gráfico para Luanda

Em virtude da colocação do vosso anúncio no sítio cargadetrabalhos.net, respondo:
– sou Designer e possuo as qualificações por vós requeridas;
– este pedido parece-me uma possibilidade de desenvolvimento pessoal e profissional muito enriquecedora;

Contudo, o vosso pedido é representativo da desigualdade (em alguns casos, desrespeito) pessoal-profissional, que existe entre entidades empregadores e possíveis empregados, e se tem vindo a verificar neste meio profissional. Demonstra igualmente a sujeição a que alguns interessados se prestam para tentarem a sua sorte. Enviar um conjunto de informações suas, que o identificam, assim como, um conjunto de trabalhos demonstrativos do que é enquanto profissional e que pretendem em última instância, o convencimento da empresa, de que se é capaz, e se cumprirá o cargo em questão; submeter um portfolio a um júri que não se conhece, quero dizer, não identificado, é quanto a mim uma questão de sorte, mas sobretudo de fé. E algum desespero!
Todo o designer deve ter o direito de saber a quem está a enviar os seus dados, o seu portfolio e a sua proposta de colaboração. Quem está do outro lado? Com que expectativas? O que pretende? O que valoriza? Mas, principalmente, o designer deve estar esclarecido antes de decidir avançar com a sua proposta. Isto é, decidir se a empresa em questão lhe interessa e se ele próprio enquanto profissional pode interessar aquela empresa. O que só é possível, se os anúncios de emprego começarem a apresentar essa informação. E só é possível, se as empresas aceitarem que os profissionais também têm a capacidade, e sobretudo o direito, de seleccionar a quem se dirigem. Porque não existe apenas um universo de agências de design, mas vários e muito diversos; porque existirão sempre inúmeras e incompatíveis formas de encarar e exercer a disciplina. Porque, acredito que se todos os pedidos fossem mais claros e visíveis, o processo de selecção de candidatos seria menos moroso para a empresa e menos desprestigiante para os candidatos. (Evitando-se a quantidade de portfolios fora do baralho e evitando-se a espera do mail de resposta que nunca mais chega, e que nunca vai chegar.) A bem do respeito pelos candidatos a qualquer emprego, acredito que esta situação pode ter outra solução.

Atenciosamente,

Tenho uma carta escrita

Menina quero enviar esta carta para Portugal. Diga-me por favor o código postal.

Responde ela.
— Qual Portugal, meu Senhor? Aqui no computador aparece uma
localidade em Lagos, Algarve. Portas de Portugal, 8600-998 Lagos, é isso? Qual é a rua?

Não. É Portugal-Portugal.
— Portugal-Portugal não sei onde fica. Não vem aqui no computador.
Ah, está bem. Deixe estar. Obrigado.

Como um relâmpago atinge-me a tua inacessibilidade. O teu paradeiro incerto. Afinal que vou fazer? Tenho tanto para te dizer. E não há maneira de sequestrar por um momento que seja o teu ouvido, o teu olhar.

Resignado, rasgo a carta e coloco-a no cesto dos papeis, ali mesmo na estação de correios.

Paciência. Fica para a próxima, se houver próxima. Tudo é incerto. Vêm-me à mona as sábias palavras de um teu versejador caixa-de-óculos alcoólico, tímido, e esquizofrénico: a metafísica é uma consequência de se estar mal disposto.
A vida são dois dias e tristezas não pagam dívidas, como repetes à saciedade.
Desenganado desço a rua, ciente de que o velho se calhar já não vai por cá andar muito mais tempo. E eu? Quanto mais tempo terei? Foi uma pena. Era agora, agora ou nunca. Mas que se lixe. Velho, faz como entenderes.
Adeus até um destes dias.

Talvez.

Quem sabe?

©ouvido de maxwell http://www.ouvidodemaxwell.com/
onde ler e ouvir a versão completa desta carta