Category Archives: Design gráfico

K, parece impossível!

IM001745

O editorial conquistou-nos à primeira leitura. Faz sentido se pensarmos num discurso, muito difundido em design, que defende acima de tudo a invisibilidade, em que se cumprem propósitos sem levantar controvérsia. Então, somos meninos bonitos bem comportados, fazemos aquilo que nos mandam com medo de perder alguma coisa… O que, na verdade acontece mais a quem tem menos… é quando temos pouco que é mais difícil arriscar—e é o que acontece com grande parte de nós. A revista K sempre se portou mal e fez o contrário disto tudo. Por isso, ou talvez não, durou três anos.

Num Maio quente passamos alguns dias por Lisboa a pesquisar para a dissertação de História e Crítica do Design. Decidimos que queríamos fazer sobre publicações do século XX, talvez porque na altura alimentávamos a ideia de fazer o nosso próprio projecto editorial—qual é o designer que não teve já esse sonho? Na Hemeroteca de Lisboa muito do tempo foi passado a descobrir publicações, mais ou menos antigas, mas quase todas desconhecidas para nós… Fazíamos pesquisa por temas, ou por autores-chave—autênticos tiros no escuro—uma estratégia definida no local, depois de um arquivista da casa nos ter dito que aquilo que nos propunha-mos fazer correspondia, simplesmente, a 12 Km de estante. Perdemo-nos durante dias só a olhar para páginas e capas, escolhemos, por razões distintas, cinco publicações. Uma delas, encontrada na secção de periódicos de temas variados— a K—foi certamente a publicação que mais nos influenciou para além do trabalho inicialmente previsto. A K foi ainda matéria para outros projectos— reformulação de identidade gráfica, plataforma online de divulgação dos conteúdos originais, e um manifesto contra—que desenvolvemos nesse ano.

A K era dividida em três partes, permitindo ter três géneros de revistas dentro de uma, ambas na mesma família mas com níveis diferentes. A primeira parte, um aperitivo de textos breves e ligeiros onde existem secções com os títulos: Delírios; Traduções Selvagens; Sair com…; ou O bufo—sequência de imagens televisivas numa nova narrativa visual sugerida pela edição da sequência e da legendagem.
A segunda parte chamava-se precisamente A Revista—adquire uma componente mais próxima de uma publicação convencional—só neste momento é apresentado o índice da publicação. É no entanto, uma sátira ao que se entende por revista: um conjunto de páginas, com lugar para editoriais, entrevista, reportagem, moda, crítica… Talvez seja a parte em que as opções de escrita menos contaminam o conteúdo que, neste caso, se torna mais controlado pelas próprias colaborações. No entanto, o tipo de entrevistas é tudo menos convencional, tendo por exemplo a entrevista a Mário Cesariny  “que acaba aos gritos” entre um “entrevistador anónimo” e um “poeta furioso” com o título jornalisticamente incorrecto “Honestíssimas, meritíssimas putas!”
Finalmente a terceira parte da KColunas—tem secções como Dinheiro; A arte; A filosofia; A família; A alma; A política

A capa do primeiro número antevê o artigo e fotografias do interior—uma fotorreportagem de Inês Gonçalves, com os miúdos da colónia O século na praia. O cuidado fotográfico sempre foi uma das características constantes na K, destacando-se pela beleza formal e pouco convencional dos enquadramentos. Na maior parte das vezes, as capas são uma extensão da fotorreportagem daquele número, mas não apenas a repetição da melhor fotografia.
Apesar das secções serem mais ou menos constantes entre números, os conteúdos são muito variados. Desde um Manual da Vingança, até às Rapidinhas culturais e uma ilustração explicativa do que fazer com “o Público que não consegue ler”.
Houve sempre lugar para a experimentação, por exemplo este número em que fazem um grande destaque na capa ao preço da revista “500 paus” ao lado daquele artista que aos 26 anos a K considera um génio—Rui Chafes. Outro exemplo: aqui o logo aparece substituído por um “rectângulo vermelho”. A K teve dois logos, o segundo muito mais interessante, já sem o K old style, numa letra sem serifas e sem contraste de peso.

A K foi uma fanzine sofisticada, cuja amplitude de distribuição e vendas permitiu apresentá-la como revista, o que também veio subverter todas as noções estabelecidas para uma publicação deste género. É o design que confere à K um carácter menos marginal, porque é cuidado e elegante nalguns casos; noutros livre e popular, com tratamento forte e gritante. Parte de um universo muito pessoal, familiar, restrito ao grupo dos seus colaboradores e por isso mesmo chega, nalguns casos, a ser quase um monólogo.
Aquilo que me faz gostar da K e pensar nela como um projecto editorial singular, é a provocação e a energia. Mesmo que muitos dos artigos me irritem, me incomodem… Reconheço essa inteligência e persistência por assuntos da actualidade, do seu tempo, pondo o dedo na ferida quando lhe apeteceu. A K não foi uma revista intemporal, mas uma revista que retrata bem uma época e uma geração que não foi a minha e que já conheci tarde.

Goste-se ou não do estilo, a K cumpriu bem os objectivos a que se propôs no primeiro editorial, nunca foi objectiva e isenta—assumiu sempre os seus ódios e as suas paixões—os conteúdos são controversos e políticos, mantendo a fasquia do humor ao mesmo nível, quer para assuntos mundanos, entrevistas, temas sérios e políticos. Desafiava a autoridade e os lugares comuns de uma determinada cultura, quis incomodar, chatear. Foi um projecto contra-corrente ao pensamento jornalístico vigente, quanto a eles, um pensamento que é comedido, indiferente, sem posição, um jornalismo, mais ou menos tanto faz.  Não foi revista de consensos e não se levou demasiado a sério. Uma qualidade. Será impossível?!

k A revista impossível [Outubro 1990-Abril 1993]

Director: Miguel Esteves Cardoso;

Editor artístico: Luís Vilaça (existem diversos editores

de acordo com cada conteúdo)

Projecto gráfico: João Botelho

Propriedade: C.C. & B. edições limitada.

Fotocomposição: Trama, artes gráficas

Impressão: Lisgráfica

Tiragem: não referida

Anúncios

Falar em público

José Tavares
José Tavares, 1976, Arquivo Diário de Lisboa

Há uns anos atrás fizemos um manifesto anónimo para o Caldas Late Night. Viviamos tempos de insatisfação e tinhamos muita vontade para fazer alguma coisa. Tudo aconteceu muito rápido—tal era a nossa urgência—em poucos dias fizemos e colamos cartazes fotocopiados pela escola e pela cidade. O que nos levou a isso hoje já pouco importa, mas  escolhermos uma forma anónima para o fazer levou-nos a grandes discussões internas e externas. Não o fizemos por falta de coragem. Se há coisa que sempre me irritou foi a abstenção, o “podia dizer o que penso mas não vale a pena”. Sempre conheci muitas pessoas com esta postura no meio universitário, e fora dele, demasiado comprometidas com a instituição, as amizades pessoais, a posição comóda e saloia de “parecer sempre bem”. Evitando a todo o custo as posições “marcadamente” políticas, o confronto, a tomada de posição… Depois, entre dentes, sussurram-se breves notas, entra-se em acordo dependendo da pessoa com quem se estabele o diálogo, mas sempre em privado. Por isso ter uma postura anónima nunca foi totalmente do meu agrado. 
Tempos depois, em conversa, alguém dizia que os cartazes colados nesse dia tinham sido feitos por membros da Associação de estudantes. Nessa altura, pude assumir claramente que tinha sido uma das autoras. Depois de terem havido inúmeros suspeitos, aquilo que me parecia óbvio nunca aconteceu—ser confrontada directamente com a pergunta “foram vocês?”.
A verdade não era apenas essa. É certo que tive medo das consequências do que disse e da forma como o fiz, publicamente. Mas a razão principal do anonimato prendeu-se precisamente com facto de não querer associar aquele momento (da mensagem) a uma identidade específica, que facilmente poderia ser desvalorizada. No meio em que estavamos facilmente se faziam juízos de valor fáceis e preguiçosos sobre os alunos, antes sequer de os conhecerem melhor. Mais tarde percebi que isto não seria um mal exclusivo daquele contexto… 
Se o anonimato pode desvincular um trabalho de uma identidade, de um currículo mental, o que acontece na maior parte das vezes é ser entendido como um acto de pura cobardia. A mim sempre me agradou essa liberdade de pensar nas coisas para além de quem as diz ou quem as faz—pensar como fim em si mesmas—uma permissão do anonimato. Até porque eu não sou linear e às vezes saio do trilho… e afinal também somos contra generalizações.
Talvez por isso a crítica verdadeiramente honesta seja tão difícil, e neste sentido pouco corajosa, sem assumir os riscos. Comprometidos que estamos com relações sociais, estruturas, emprego, sabemos bem que as palavras têm pesos e consequências difíceis de suportar. Talvez seja também esta uma razão para que os designers escrevam tão pouco. Porque é difícil passar além da esfera confortável do convívio, da conversa de circunstância, da rede social das caras conhecidas. É-nos muito doloroso analisar o trabalho dos outros ao mesmo tempo que nos identificamos e sabemos que não somos melhores, mais capazes, mais acertivos… “Pelo sim pelo não” preferimos ficar pelo “razoável”, por aquilo que “não nos compromete”. 

Há uns anos atrás fizemos um manifesto anónimo para o Caldas Late Night. Viviamos tempos de insatisfação e tinhamos muita vontade para fazer alguma coisa. Tudo aconteceu muito rápido—tal era a nossa urgência—em poucos dias fizemos e colamos cartazes fotocopiados pela escola e pela cidade. O que nos levou a isso hoje já pouco importa, mas  escolhermos uma forma anónima para o fazer levou-nos a grandes discussões internas e externas. Não o fizemos por falta de coragem. Se há coisa que sempre me irritou foi a abstenção, o “podia dizer o que penso mas não vale a pena”. Sempre conheci muitas pessoas com esta postura no meio universitário, e fora dele, demasiado comprometidas com a instituição, as amizades pessoais, a posição comóda e saloia de “parecer sempre bem”. Evita-se a todo o custo as posições marcadamente políticas, o confronto, a tomada de posição. Depois, entre dentes, sussurra-se breves notas, entra-se em acordo dependendo da pessoa com quem se estabele o diálogo, mas sempre em privado. Por isso ter uma postura anónima nunca foi totalmente do meu agrado. 

Tempos depois, em conversa, alguém dizia que os cartazes colados nesse dia tinham sido feitos por membros da Associação de estudantes. Nessa altura, pude assumir claramente que tinha sido uma das autoras. Depois de terem havido inúmeros suspeitos, aquilo que me parecia óbvio nunca aconteceu—ser confrontada directamente com a pergunta “foram vocês?”.

A verdade não era apenas essa. É certo que tive medo das consequências do que disse e da forma como o fiz, publicamente. Mas a razão principal do anonimato prendeu-se precisamente com facto de não querer associar aquele momento (da mensagem) a uma identidade específica, que facilmente poderia ser desvalorizada. No meio em que estavamos facilmente se faziam juízos de valor fáceis e preguiçosos sobre os alunos, antes sequer de os conhecerem melhor. Mais tarde percebi que isto não seria um mal exclusivo daquele contexto… 

Se o anonimato pode desvincular um trabalho de uma identidade, de um currículo mental, o que acontece na maior parte das vezes é ser entendido como um acto de pura cobardia. A mim sempre me agradou essa liberdade de pensar nas coisas para além de quem as diz ou quem as faz—pensar como fim em si mesmas—uma permissão do anonimato. Até porque eu não sou linear e às vezes saio do trilho… e afinal também somos contra generalizações…

Talvez por isso a crítica verdadeiramente honesta seja tão difícil, e neste sentido pouco corajosa, sem assumir os riscos. Comprometidos que estamos com relações sociais, estruturas, emprego, sabemos bem que as palavras têm pesos e consequências difíceis de suportar. Talvez seja também esta uma razão para que os designers escrevam tão pouco. Porque é difícil passar além da esfera confortável do convívio, da conversa de circunstância, da rede social das caras conhecidas. É-nos muito doloroso analisar o trabalho dos outros ao mesmo tempo que nos identificamos e sabemos que não somos melhores, mais capazes, mais assertivos… “Pelo sim pelo não” preferimos ficar pelo “razoável”, por aquilo que “não nos compromete”.

Do cliente

Há clientes e clientes… há os que sabem o que querem e os que não. 
Podem ser críticos, imparciais, efusivos, indecisos, atentos, pró-activos, confiantes, descrentes, entusiastas, politicamente correctos ou assumidamente controladores; com maior ou menor capacidade de visualização e imaginação. “Tenho de ver”, “Só vendo”, “É muito belo”, “Não funciona”, “Vou dormir sobre o assunto”.

Há quem procure alguém que canaliza e formaliza as suas ideias em estado intermitente ou desfocado. Há quem procure um técnico especializado e eficiente, que pacientemente ao computador concretiza tudo aquilo que já tem pensado. “Eu até podia fazer isso, mas não tenho tempo [não me apetece]”.

O cliente, o bicho papão, o chico-esperto ou o cúmplice do projecto, a casa da partida para editar, produzir e comunicar matérias que, nos sendo externas, nos definem e revelam enquanto pessoas e designers? Temos de escolher que caminho tomar… é este o compromisso.

A autoria de um projecto de design é partilhada, sempre. Depois, e paralelamente ao perfil do cliente, existem vários perfis reagentes a essa constatação. Há aqueles que não só valorizam  a possibilidade como a usam enquanto condição ao limite das suas vantagens… e há também aqueles que não admitem que as regras impostas pelo seu trabalho são necessidades, implicações do cliente e não estratégias gráficas definidas por si autonomamente.

Um amigo disse-me uma vez – só vais conseguir trabalhar para um cliente que seja uma pessoa como tu. Ele referia-se a trabalhar para uma realização completa, a partir de projectos construídos em uníssono. Também se pode pensar esta ideia no momento antes do projecto, o convite, ou a auto-proposta concretizáveis na tal parceria. Quando um cliente escolhe o designer ou a equipa pelo que conhece do seu trabalho estará a fazer essa escolha com base em alguma empatia, alguma ligação. Se por um lado esta ideia é, em abstrato, claustrofóbica tem sido, a cada concretização, muito refrescante e animadora.

Independentemente de se ser ou não amigo do cliente, ou de se poder vir a ser, é fundamental para mim respeitar essa pessoa —ter por ela admiração— pelo seu trabalho (perfil, conduta, resultados e continuidade de projectos), habitualmente de outra natureza mas com problemáticas que são de raiz aproximáveis ao projecto de design.

Sendo para isso importante cultivar a partilha de interesses, abordagens e cumplicidades, resuldado do trabalho conjunto, mas mantendo a via profissionalizante da coisa.

[Será o melhor dos dois mundos?] Não é só por ser reconfortante um chá verde ou até uma lasanha a meio de uma sessão de trabalho, é produtivo quando se fala a mesma linguagem, quando se definem naturalmente papéis complementares de envolvimento mútuo no processo, quando a sintonia não significa ser igual mas estar a ver as mesmas coisas, estar na mesma frequência. Conseguir através dessa afinidade que se trabalhou uma melhor descodificação de uma área de conhecimento até então menos conhecida. Nesta relação quem ganha é o trabalho. E os intervenientes ficam ambos mais satisfeitos.

Apesar de tudo não há melhor situação do que manter uma comunicação próxima, inversamente a trabalhar para alguém que não se conhece, que nunca se viu mas existe enquanto figura hostil e castradora para pré-definir na nossa cabeça algumas soluções antes de serem apresentadas, defendidas ou sequer trabalhadas.

A impressão

cartaz

Na minha turma de design haviam alguns alunos, trabalhadores estudantes, que frequentemente comentavam na sala de aula acontecimentos da sua vida laboral: um trabalho mal impresso, um cliente mais imaginativo, como tinham resolvido esta ou aquela situação. Como os projectos de design gráfico eram sempre muito livres e com poucas imposições, os alunos podiam sugerir o que pretendiam fazer. Muitos optavam pelo cliente “fictício” mais ou menos realista. Outros ainda aproveitavam para trazer para avaliação muitos dos trabalhos realizados dentro de um contexto “profissional” e bem “real”. Lembro-me de uma colega de turma, designer freelancer, aproveitar as aulas como lamento dos episódios laborais com frases como: “quando vocês trabalharem vão ver como elas vos mordem” ou então “isso é tudo muito bonito e acho muita graça a pessoas idealistas, mas espera até trabalhares…” A vontade era acabar rapidamente o curso para finalmente viver-se no mundo com trabalhos a “sério”.

Enquanto estudantes só imprimimos dois trabalhos em offset: uma agenda escolar no segundo ano e que servia de agenda da escola de professores e alunos (projecto que acabou nesse ano) e um cartaz para o ciclo de conferências do Comunicar Design 05. Sempre que pretendiamos um trabalho com melhor acabamento tinhamos a vantagem de ter uma oficina de serigrafia na escola, mais ou menos à disposição. Lembro-me que na véspera de ir à gráfica imprimir o cartaz, estava eu no 5º ano, mal dormi a pensar se teria feito tudo bem, se não me tinha engano ou esquecido de alguma coisa. Lá fomos à Batalha, em excursão, à gráfica onde trabalhava um dos nossos colegas de turma. Quando viemos para casa, depois de um dia inteiro na gráfica a chatear toda a gente, eu já trazia uma série de exemplares que exibia orgulhosamente. Depois colamos o cartaz na sala de nossa casa e durante semanas lá olhava feliz para a impressão offset, prova física de meses de dúvidas.

Depois veio o trabalho… Para as gráficas, que agora eram de grandes dimensões, lá mandava semanalmente o texto “segue em anexo ficheiro X, obrigada e bom trabalho”. Dos trabalhos impressos quando os via já tinham passado semanas ou meses… Muitas vezes via-os primeiro nos locais, expostos. Chegavam às vezes por correio, dava-se uma vista rápida até serem guardados num piso relativamente elevado, umas escadas que não davam a lado nenhum, apenas a uma estante com alguns livros e o arquivo com os anos de história do atelier. Nestas coisas diz-se o habitual: não há tempo, é a velocidade e o stress… Mas não seria só isso. Até porque essa também me parece a habitual desculpa do mundo empresarial, o tempo, sempre o tempo… 

Isto tudo para concluir que ainda não dou razão à minha colega de turma que com insistência nos dava conselhos sobre “o trabalho” e a vida depois da escola. Discurso esse que curiosamente, também ouvi pelo Juri dos jovens criadores 06 a respeito dos projectos escolares. Os trabalhos que realizamos na escola, sem clientes, sem honorários, sem despesas e tempo para balançar no orçamento, são trabalhos que não merecem ser minorizados. Muito pelo contrário. São trabalhos nos quais depositavamos muitos sonhos sem receber nada em troca. E como pode haver análise critica ao trabalho dos designers que não depositam “tempo” para contar a sua história para além dos prémios e dos projectos de sucesso? Às vezes uma boa (ou má) impressão não conta tudo…

Em tempos de crise…

autografo

Enquanto esperava numa fila para comprar este livro e para ter a minha cópia assinada, lembrei-me que a única vez que tinha feito algo semelhente foi há cerca de 10 anos atrás… Recebi este desenho/autógrafo (na imagem) no salão de banda desenhada cá no Porto pelas mãos do ilustrador do “Aqui, à terra”, o mesmo autor do agora editado “Design em Tempos de Crise”. Estão ambos de parabéns, os editores e o autor, por este belo objecto de crítica de design em português. Já fazia falta…

Artes Plásticas (1973-1977) Revista mensal de artes plástica, análise crítica, ensaio e informação

capa e contracapa Shirley Cameron & Roland Miller

 

A revista Artes Plásticas publicada pela primeira vez em Outubro de 1973, a custar 25$00, é uma revista direccionada, claro está, para as Artes (Visuais ou Plásticas) através da divulgação de projectos, correntes artísticas e seus autores, e sobretudo pelo acompanhamento da arte portuguesa no contexto internacional, promove a discusão da teoria crítica da arte. Propõe-se como meio para a troca de opiniões, um contraponto teórico e prático. Tendo sido na época, uma importante fonte divigulgadora da vanguarda artística, tanto pela importação quanto pela exportação, não só destacando o trabalho de artistas portugueses, como também fazendo chegar ao público português algumas promessas internacionais. Muitos artistas, ainda em início de carreira, então divulgados, são referências actuais. 

Esta revista tem um projecto gráfico com vida própria, não por ser desligado dos restantes critérios editoriais, mas fazendo-se notar por ser pensado ao mesmo nível de qualquer artigo ou tema, e existindo em conformidade à compreensão geral do mesmo. A cada número apresenta um uso diferente de tipos de letra, por vezes pouco convencionais ou inadequados, quando procura ilustrar determinado tema ou apresentá-lo de forma distintiva dos restantes. Usa tipos não serifados para texto, o que era invulgar para a época. A diversidade tipográfica nota-se na mancha de texto, ao nível dos títulos, no corpo e a variada colocação na grelha. 

Quanto à grelha e sua flexibilidade, permite alguma manobra em termos de ritmo. Pelas suas sub-divisões possibilita a variação entre uma e três colunas, e o aumento ou diminuição do corpo de letra em função desta opção. Apesar de nem sempre conseguir uma mancha de texto agradável, percebe-se a vontade de ter um esquema menos rígido que permita adaptar uma paginação ao género de texto, seja ensaio, reportagem, entrevista, portfolio, notícias breves, etc., conseguindo uma sequência de páginas algo imprevista. O conteúdo contamina por completo todo o grafismo, ou por outras palavras, a forma resultante deve muito às fotografias, aos desenhos, às reproduções de obras de arte, mas também ao tratamento tipográfico e ao cut-up das montagens. Daí que, o interesse formal, visualmente rico, viva essencialmente das imagens. 

As suas páginas são geralmente de aspecto condensado, mais acentuado pelos aparos feitos aos volumes encadernados da Hemeroteca de Lisboa, onde foram fotografadas as imagens. Este desenho de página vem no seguimento daqueles jornais cujo papel era aproveitado ao máximo milímetro – em que as colunas de texto eram coladas entre si, aproveitando o contorno da caixa como solução-ganho ao espaço branco necessário entre colunas – defendendo o equilíbrio da página com a existência de espaços brancos pelo meio a fazer composição. 

Este grafismo exibe já uma identidade muito própria direccionada para a prática do design gráfico. A forma como lida com a informação, cortando palavras, títulos, fragmentando, desmultiplicando, denuncia uma abertura ao design enquanto descodificador de mensagens, no papel activo do leitor, mostrando ter conhecimentos de como chamar a atenção dos leitores para o artigo. Um facto bastante curioso: estamos em 1974, data em que é publicado um artigo chamado A arte, o sentido e o design, por Lima de Freitas. Um artigo que faz precisamente a correspondência entre as duas disciplinas – que sempre existiu, uma vez que o design era prática habitual dos artistas, mas na altura em que o Design começa a ser leccionado de forma autónoma nas Belas Artes, é nomeado também neste artigo como disciplina independente.

O logotipo, de que não sabemos a autoria, é uma marca forte e temporal, como cabeçalho da revista.  Surge na primeira capa (com trabalho de Arnulf Rainer) e ao longo dos vários números editados, de várias maneiras. Inicialmente maior, e número após número viria a tornar-se mais subtil, aparecendo também a combinar com a imagem/obra que é primordial na capa. Diminuído, inserido como pequeno apontamento, conforme vai dando mais jeito, mas sem perder a identificação. 
As capas, bem conseguidas, são habitualmente imagens duotone (em alguns casos passa a três ou apenas uma cor de impressão) e tem o valor de um tributo, nem sempre segundo a lógica do destaque, em que o tema principal daquele número tem uma chamada de capa, mas a capa é um cartão de visita encerrado em si, podendo o autor não ser apresentado no interior da revista. 

O número 7/8 da revista é marcado por uma viragem da linguagem visual, por novas opções da nova equipa que liderou o projecto gráfico. Esta mudança resulta num grafismo muito menos interessante, severamente afectado pela evolução técnica e tecnológica.

Director · Egídio Álvaro
Colaboradores · Rocha de Sousa, Lima de Freitas, Fernando Lanhas, Luigi Carlucciu, António Areal, Alfredo Queiroz Ribeiro, Rui Mário Gonçalves, Giovanni Giappolo, Sallete Tavares, Eurico Gonçalves, Mirella Bandini, Oystn Hjort, João Dixo, Rugiero Bianchi, Patrick Le Nouen, Ângelo de Sousa, Jaime Ferreira, Anne Troen Che, Yann Pavie, Jean Luc Parant 
Direcção Gráfica · Gabinete JB, SARL
Execusão Gráfica · Simão Guimarães, Filhos, Lda (do nº1 ao 6); Tipografia Arcanjo Ribeiro (nº 7/8
Fotografia · Ursa Zangger, P. Bressano, Hannes Flury, André Morain, António Sousa, Clareboudt, Raymond Vennier, Tahara, Eduardo Sá Carneiro, João Lanhas
Distribuição · Livraria Bertrand
Peridiocidade · mensal
Tiragem não referida
Patrocinada pelo Banco Pinto de Magalhães

Cartão pessoal

Este é a partir de hoje o meu cartão pessoal de designer. Designer gráfica que arranja problemas, não há cá dúvidas ou surpresas, não engano ninguém…

Entre o cartão de um designer que faz arranjos de problemas, resolve problemas e encontra as soluções, eu cá aviso que sou mais especialista em arranjar problemas do que propriamente em solucioná-los com fórmulas milagrosas. Até porque não gosto de fórmulas e não gosto de resolver sempre as coisas da mesma maneira. Ora aí está um outro problema que gosto de arranjar: complicar as coisas. Outro problema? Leio demasiados romances, fantasio demasiado, para me contentar com vida controlada e resignada. E na minha vida está o meu trabalho, não consigo, nem nunca soube, separar as coisas. Mais um problema, dizem-me! Mais um a que não consigo fazer arranjo.