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Artes Plásticas (1973-1977) Revista mensal de artes plástica, análise crítica, ensaio e informação

capa e contracapa Shirley Cameron & Roland Miller

 

A revista Artes Plásticas publicada pela primeira vez em Outubro de 1973, a custar 25$00, é uma revista direccionada, claro está, para as Artes (Visuais ou Plásticas) através da divulgação de projectos, correntes artísticas e seus autores, e sobretudo pelo acompanhamento da arte portuguesa no contexto internacional, promove a discusão da teoria crítica da arte. Propõe-se como meio para a troca de opiniões, um contraponto teórico e prático. Tendo sido na época, uma importante fonte divigulgadora da vanguarda artística, tanto pela importação quanto pela exportação, não só destacando o trabalho de artistas portugueses, como também fazendo chegar ao público português algumas promessas internacionais. Muitos artistas, ainda em início de carreira, então divulgados, são referências actuais. 

Esta revista tem um projecto gráfico com vida própria, não por ser desligado dos restantes critérios editoriais, mas fazendo-se notar por ser pensado ao mesmo nível de qualquer artigo ou tema, e existindo em conformidade à compreensão geral do mesmo. A cada número apresenta um uso diferente de tipos de letra, por vezes pouco convencionais ou inadequados, quando procura ilustrar determinado tema ou apresentá-lo de forma distintiva dos restantes. Usa tipos não serifados para texto, o que era invulgar para a época. A diversidade tipográfica nota-se na mancha de texto, ao nível dos títulos, no corpo e a variada colocação na grelha. 

Quanto à grelha e sua flexibilidade, permite alguma manobra em termos de ritmo. Pelas suas sub-divisões possibilita a variação entre uma e três colunas, e o aumento ou diminuição do corpo de letra em função desta opção. Apesar de nem sempre conseguir uma mancha de texto agradável, percebe-se a vontade de ter um esquema menos rígido que permita adaptar uma paginação ao género de texto, seja ensaio, reportagem, entrevista, portfolio, notícias breves, etc., conseguindo uma sequência de páginas algo imprevista. O conteúdo contamina por completo todo o grafismo, ou por outras palavras, a forma resultante deve muito às fotografias, aos desenhos, às reproduções de obras de arte, mas também ao tratamento tipográfico e ao cut-up das montagens. Daí que, o interesse formal, visualmente rico, viva essencialmente das imagens. 

As suas páginas são geralmente de aspecto condensado, mais acentuado pelos aparos feitos aos volumes encadernados da Hemeroteca de Lisboa, onde foram fotografadas as imagens. Este desenho de página vem no seguimento daqueles jornais cujo papel era aproveitado ao máximo milímetro – em que as colunas de texto eram coladas entre si, aproveitando o contorno da caixa como solução-ganho ao espaço branco necessário entre colunas – defendendo o equilíbrio da página com a existência de espaços brancos pelo meio a fazer composição. 

Este grafismo exibe já uma identidade muito própria direccionada para a prática do design gráfico. A forma como lida com a informação, cortando palavras, títulos, fragmentando, desmultiplicando, denuncia uma abertura ao design enquanto descodificador de mensagens, no papel activo do leitor, mostrando ter conhecimentos de como chamar a atenção dos leitores para o artigo. Um facto bastante curioso: estamos em 1974, data em que é publicado um artigo chamado A arte, o sentido e o design, por Lima de Freitas. Um artigo que faz precisamente a correspondência entre as duas disciplinas – que sempre existiu, uma vez que o design era prática habitual dos artistas, mas na altura em que o Design começa a ser leccionado de forma autónoma nas Belas Artes, é nomeado também neste artigo como disciplina independente.

O logotipo, de que não sabemos a autoria, é uma marca forte e temporal, como cabeçalho da revista.  Surge na primeira capa (com trabalho de Arnulf Rainer) e ao longo dos vários números editados, de várias maneiras. Inicialmente maior, e número após número viria a tornar-se mais subtil, aparecendo também a combinar com a imagem/obra que é primordial na capa. Diminuído, inserido como pequeno apontamento, conforme vai dando mais jeito, mas sem perder a identificação. 
As capas, bem conseguidas, são habitualmente imagens duotone (em alguns casos passa a três ou apenas uma cor de impressão) e tem o valor de um tributo, nem sempre segundo a lógica do destaque, em que o tema principal daquele número tem uma chamada de capa, mas a capa é um cartão de visita encerrado em si, podendo o autor não ser apresentado no interior da revista. 

O número 7/8 da revista é marcado por uma viragem da linguagem visual, por novas opções da nova equipa que liderou o projecto gráfico. Esta mudança resulta num grafismo muito menos interessante, severamente afectado pela evolução técnica e tecnológica.

Director · Egídio Álvaro
Colaboradores · Rocha de Sousa, Lima de Freitas, Fernando Lanhas, Luigi Carlucciu, António Areal, Alfredo Queiroz Ribeiro, Rui Mário Gonçalves, Giovanni Giappolo, Sallete Tavares, Eurico Gonçalves, Mirella Bandini, Oystn Hjort, João Dixo, Rugiero Bianchi, Patrick Le Nouen, Ângelo de Sousa, Jaime Ferreira, Anne Troen Che, Yann Pavie, Jean Luc Parant 
Direcção Gráfica · Gabinete JB, SARL
Execusão Gráfica · Simão Guimarães, Filhos, Lda (do nº1 ao 6); Tipografia Arcanjo Ribeiro (nº 7/8
Fotografia · Ursa Zangger, P. Bressano, Hannes Flury, André Morain, António Sousa, Clareboudt, Raymond Vennier, Tahara, Eduardo Sá Carneiro, João Lanhas
Distribuição · Livraria Bertrand
Peridiocidade · mensal
Tiragem não referida
Patrocinada pelo Banco Pinto de Magalhães

Concorrer ou jogar

sagmeister_stefan_adobe

 

A última Eye (nº69) dedica dois artigos a este tema, dando como exemplo designers que hoje são canónicos e começaram as suas carreiras ganhando concursos. Ainda é citado o livro “No contest! The case against competition, 1986/1992″ no qual é defendido que os concursos são geradores da perda de auto-estima e de criatividade.
À semelhança de vários designers, sempre concorri a muitos concursos. Já lhes perdi a conta, dos tempos de estudante até hoje, nunca senti ter ganho nada. Concorrer a concursos é o mesmo que concorrer a um emprego, nunca sabemos o que nos espera ou quem nos avalia, nem o que privilegiam esses júris, o que não nos impede de depositarmos sempre grandes esperanças. Esperamos que essa distinção possa mudar alguma coisa, trazer mais clientes, mais trabalho, mais valor pessoal e algum reconhecimento… 
Quando, há uns anos estive numa conferência do Jorge Silva no auditório da minha escola (ESAD CR) assisti com alguma perplexidade aos vários slides em que, um após o outro, surgiam os vários troféus (objectos estranhíssimos) dos ínumeros prémios ganhos. Aquilo até poderia ter a sua piada, mas na altura, como estudante, e sem sentido de humor, a situação deixou-me irritada. Afinal de contas eu não era potencial cliente, nem designer, não estaria interessada em contratar os seus serviços e estes objectos nunca são minimamente interessantes para que se perca algum tempo a limpar-lhes o pó e ainda menos a desenrolar conversa. 
Os prémios são atestados de qualidade para os clientes, e para os designers são motivos de ovação (ou desconfiança conforme o remetente e o destinatário do prémio). Os prémios servem também de complementos cómodos e inquestionáveis de valor – “este designer já ganhou 15 prémios, é um designer incontornável, não pode ser contestado”– que ultrapassam qualquer crítica. Esta vontade de ver o trabalho projectado (e reproduzido) faz com que muitas vezes nem se questione a natureza do concurso e do júri. Já cheguei a pagar por um concurso sem saber sequer quem iria ser o júri que me iria avaliar.
Apesar de todos os argumentos contra os concursos a razão porque concorremos continua a ser óbvia: valor (simbólico e monetário) numa sociedade projectada em escalas de importância e em prémios que continuam a ser uma das melhores formas de encontrar trabalho.

Afinal existe. E é bonito!

“Este livro foi um processo demoroso e complicado, mas o António é uma pessoa que faz e, talvez por isso, incomoda.” As palavras são de Miguel Lobo Antunes na apresentação do útimo livro de António Pinho Vargas, no passado dia 16 de Setembro na Culturgest. Não me interesso por música contemporânea. Simplesmente, porque nada percebo, e claro, porque nunca me dediquei a perceber. Mas estes textos acompanharam-me durante vários meses enquanto aprendiz num atelier de design. Essa leitura continuada e fragmentada fez identificar-me a cada momento, a cada repetição. Foi essa possibilidade que realmente valeu a pena, não apenas ter mais um exemplo real para o meu portfolio. É um livro que fala de design sem o dizer, que nomeia os dilemas, os desejos, os maneirismos, os discursos, os episódios e a legitimação da criação. Apesar de continuar a não perceber nada de música reconhecia a cada ousadia do autor o quanto APV percebia de prática do design naquilo em as nossas disciplinas têm em comum.

Na apresentação, nas poucas vezes que se falou de design, fez-se sem o saber. “Afinal existe. E é bonito!”, “É um livrinho porque é pequeno, mas muito denso”. Bem sei que a atenção estaria longe de ser virada para o design, mas os momentos em que era evidente ser essa a matéria, foi clara a invisibilidade que os designers continuam a ter, mesmo em instituições culturais como é o caso. Os criadores que se revêem nas mesmas problemáticas que enfrentam estão de costas voltadas.

A capa deste livro, já comparada ao interface do site pessoal de António Pinho Vargas, foi claramente o elemento mais controverso ao longo do processo… posso dizer que foram desenvolvidas pelos menos mais duas opções finalizadas (sem contar com os inúmeros esboços) não direi melhores nem piores mas, certamente menos convencionais, onde o designer tem um papel equiparado aos restantes autores e desenvolve através do seu trabalho uma reacção que prolonga e desencadeia lógicas de representação consequentes ao texto (ainda que num diálogo à distância) e que se reflectem no objecto conseguido. O design assenta aqui, mais uma vez, no nível do “bem feito”, “com bom aspecto”, “que não compromete”. É uma visão acanhada e preguiçosa mas fácil de absorver e enraizar numa prática diária de atelier. Não aconselho este livro pela capa (até me ficaria bem!) mas pelo texto que apresenta. Uma perspectiva aguçada e perspicaz, que penso poder ser seguida para além da música.

A dado momento, Paulo Ferreira de Castro a quem coube a formalidade da apresentação diz qualquer coisa como, a música e a arte não se legitimam sem ser pela resposta do público. Apesar de não ser consonante com a resposta a reacção epidérmica que tenho de imediato faz-me reconhecer toda aquela evidência: o design, aquele design, ao nunca ter sido mencionado, só estaria a querer dizer uma coisa, que ainda não tinha sido legitimado.

A minha constatação deste desconhecimento de competências e saberes, num momento em que tanto já se falou de transdisciplinariedade, fez-me recordar outro momento alto da apresentação, em que a propósito de discursos legitimadores e de um autor para mim desconhecido, se falou no divórcio do criador com o público, do velho fetichismo do génio incompreendido muitas vezes perpetuada pelo próprio criador, e do favor que o compositor faria à música ao isolar-se do mundo público para criar, tudo considerações do próprio.

Dúvidas mais saciadas se o nome deste livro fosse Cinco Conferências, Especulações críticas sobre a História do Design do século XX.

Novo Ano



Desejo Tempo.
Para os outros, para mim, para novos projectos….

A Vontade, ou o Optimismo e a Persistência

É escandalosa a forma como mudo de opinião. Lembro-me que durante muito tempo censurei a forma de auto-promoção de muitos designers. Como não queria ser igual a eles, achava que o melhor caminho seria acreditar na sorte, e esperar pelas oportunidades. Hoje considero que estava a ser comodista. Isto porque, naquela altura, via essa procura de visibilidade dos designers como mero artifício promocional, do género “isto tem a minha marca”. Outra das razões para não seguir esta tendência talvez se prendesse com o facto de, na verdade, ter vergonha do pouco trabalho que tinha, e por alguns desses trabalhos implicarem opções nas quais já não encontrava sustentação.

Neste momento não penso assim (por agora!). Há dias ouvi a Isabel Carvalho em entrevista na Antena 2, dizer que os artistas (do Porto) precisavam de espaços de exposição, e que a sua carreira artística dependia dessa visibilidade, e que era “muito triste” quando isso não acontecia. Pensei que, comigo designer, se passa o mesmo. Dependemos das oportunidades e também é disso que se fazem as carreiras. É importante sermos alvos de críticas, sermos comentados, contestados, e para isso necessariamente temos que nos expor.

Isto tudo para falar das vontades. Lembro-me de aqui há uns anos tudo era motivo para comemorações. Lembro-me até de uma garrafa de champanhe e um jantar muito especial para comemorar uma vitória antecipada (!!?”*:-@) e que se revelou mais tarde em derrota. Hoje penso que mesmo essa comemoração foi importante. Era importante sentir que havia oscilações naquilo que produzia.
Quando necessito de consolo, costumo recorrer à Emigre 69, a última, onde em 69 pequenas histórias são contadas derrapagens, mas sobretudo muitas vontades… Perceber que a Emigre, tinha passado por adversidades, críticas, dúvidas, foi um grande espanto para alguém que sempre a pensou como uma revista de referência, sempre no topo. Acho que sempre senti que seria isso a ambição, não uma ideia de estrelato, mas antes, superar as dificuldades, traçar um caminho e percorrê-lo. Para isso o empenho, o entusiasmo, são fundamentais, mas também, alguma insatisfação. Saber que se pode sempre ser melhor, não nos contentarmos com o caminho mais fácil.
Temo ter cada vez menos capacidade para me entusiasmar com as coisas em geral. As paixões são cada vez mais medidas. Por isso reconheço que, até os designers que seguem condutas com as quais eu não concordo, precisam ter disciplina e persistência para levaram em diante as suas convicções. Têm vontade…

Ser intemporal


Programa do Cinema Império, em Lisboa, 1970.

É frequente ouvir designers que dizem ter por objectivo concretizar objectos intemporais. Fazer design resistente ao tempo, que vá para além de uma época, que seja sempre actual, que não tenha referências. Desconfio. O design não é imune ao tempo. O que dizem ser a desvantagem é uma vantagem. É resultado de um conjunto de factores que o formam, que lhe dão sentido. É importante que o design consiga ser significativo no seu período, mesmo que se esgote facilmente ou seja de consumo rápido. Este é um risco que se corre.
Estar preso a uma época não é necessitariamente o mesmo que, por exemplo, partir do princípio que os cartazes dos anos 70 seriam todos iguais. Dentro dos acontecimentos históricos desta época, o design gráfico em Portugal, foi palco de muitas formas de expressão, todas elas diferentes e ricas. Por isso mesmo, também é arriscado tentar acriticamente, ressuscitar estilos e épocas. Penso que não há design intemporal, a história faz com que muitos resistam à passagem do tempo, mas também esquece…

Hoje é dia de recordar


Caldas da Rainha, uma madrugada, Maio de 2004.

As distâncias, o rural e o urbano


© Ana Coutinho, Andreia Silva e Melissa Capela
workshop de Design de Tipos. Pinhal da ESAD, 2005.

Durante os anos em que estudei na ESAD nas Caldas da Rainha, a cerca de uma hora de Lisboa, quase todo o corpo docente era da capital. Falava-se de Lisboa, visitava-se Lisboa, sempre que queríamos ver uma exposição lá íamos nós até à cidade. Caldas era sinónimo de o campo, o rural , onde se respirava ar puro e se descansava dos ritmos atribulados da grande cidade. A escola rodeada por um belo pinhal, concentrava todas essas características. Meio pequeno, familiar, podiamos fazer almoços/piqueniques no meio dos pinheiros, ou instalações, performances, concertos…

Entre os rituais para o novo ano lectivo, existia um questionário adoptado por alguns professores para “conhecer” os novos alunos. Entre outras coisas era perguntada a nossa origem/proveniencia, preferências musicais, que museus frequentavamos, que livros líamos, que designers eram os nossos eleitos, que programas víamos na televisão… Os sinceros lá confessavam, em tom quase vergonhoso, que já há algum tempo não iam ao teatro, que o último livro que leram era de autor “que já nem se lembravam do nome”; outros, tentavam impressionar apostando aquelas respostas que ficam sempre bem neste tipo de questionário, como o exemplo – “o meu filme preferido é o La Jetée do Chris Marker” ou “o meu texto preferido A era do efémero do Lipovestky”, etc… Claro que os mais astutos adaptavam as respostas de acordo com o prof. que queriam impressionar. No caso de ser um prof de Design citava-se como filme essencial Blade Runner de Ridley Scott, para um prof de Cultura Visual citava-se Roland Barthes…
Esta análise sempre foi uma fórmula fácil e rápida: que tipo de alunos eramos, se pertenciamos aos urbanos ou aos rurais. Sempre foi também uma forma preguiçosa de agrupar pessoas, se estas correspondiam a uma ideia de cultura catalogada e de respostas imediatas. Neste sector eu era a aluna do Porto, apesar de na realidade até nem ser do Porto, a verdade é que para os mais curiosos não revelava a minha ruralidade, não queria ser uma menina da aldeia.

Isto tudo porque, quando pensamos em design, palavra urbana por natureza, pensamos idealmente em algo associado à cultura, que cresce nas grandes cidades. Algumas vezes ouvi conselhos em que nos diziam para tentar safar-nos nos meios pequenos, que era muito válido aqueles alunos que iam trabalhar para as terrinhas e tentar desenvolver lá uma linha gráfica. A verdade é que quem dava estes conselhos na realidade sabia, por experiência própria, que trabalhar nos meios urbanos aumenta a exigência, é dificil, mas permite o contacto com outros trabalhos, outras oportunidades que de outro modo nunca teria.
Se agora penso em tudo isto é porque dificilmente acreditava que voltaria a viver, passados seis anos, na cidade de fins de semana e hospedeira da minha adolescência. Vim, naturalmente atrás daquilo que todos procuramos: independência, trabalho… uma vida melhor.

A Regionalização

Vivemos num país pequeno. Ainda mais pequeno quando pensamos em design. Fará algum sentido regionalizar o design em Portugal?

Quem vive em Lisboa desconhece o Porto e vice-versa. Alguns depoimentos de lisboetas já disseram: o Porto é um lugar pequeno onde pouca coisa acontece. As ruas são sujas, as pessoas dizem palavrões, fala-se mal… Existirão certamente galhardetes para a troca do lado “contrário”…
Quando, em Portugal, se fez uma exposição sobre design português, por altura da Experimenta Design 2005, maioritariamente, os exemplos apresentados eram da capital. Muito se falou da ausência escandalosa de muitos designers “desconhecidos” mas que regularmente figuram na imprensa nacional.

Como o design em Portugal vive ainda de relações que lhe são externas, os projectos de comunicação assumem uma existência que lhe é exterior, que é a da esfera social a que os seus autores estão sujeitos, e que fazem deles, reféns de um meio local. O meio que se vive diariamente, com que se cruzam na rua, o que se comenta em cafés, o mesmo meio que por vezes serve o impedimento da projecção nacional, apesar da divulgação semanal na imprensa em que muitos destes trabalhos estão presentes.

Tendo estudado numa pequena cidade, como é a das Caldas da Rainha, não defendo aqui regionalismos saloios, mas sempre recebi aquela que era a “grande cultura lisboeta” feita de amizades e conhecimentos de circunstância em que a proveniência, o local onde tivemos a felicidade/infelicidade de nascer, teria um peso simbólico.
Com estas ideias não se pretende valorizar/validar o mais pequeno sobre o mais conhecido, nem o detentor de menos meios sobre o mais mediático, mas antes, referir que ainda há vários desconhecidos dos nossos vizinhos com trabalho consistente e continuado, publicado. Perante isto, o nosso lugar, o Local mantem-se mais detentor do nosso conhecimento, do que o seria o possível Global do design em Portugal.

RE:



Anónimo
, Agosto 1975
48,5 X 68 cm
Inova, Artes Gráficas
Biblioteca Nacional, Lisboa