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Cultura em Potência

braco de ferro 17

BF17—Bar introspectivo ocupado (cultura em potência)

Sr. Visitante —Este agora já não oferecem? [folha de exposição custo 1€]
Sra Vigilante—Não, agora já não.
Sr. Visitante —Então é só mesmo para quem quer. [não compra a folha de exposição]
Sra. Visitante —E o cátalogo, já viste?
Sr. Visitante — Sim, está giro. A gente depois pede à Isabel.
Fui a uma exposição na baixa. A entrada, gratuita. À saída, enquanto dava uma vista de olhos no catálogo e olhava para a carteira à procura dos ultimos euros para comprar o livro ouvi esta conversa.—Este agora já não oferecem? [folha de exposição custo 1€]

—Este agora já não oferecem? [apontando para livro de exposição. Custo 1€]
—Não, agora já não.
—Então é só mesmo para quem quer. [não compra] E o cátalogo, já viste? Está giro. A gente depois pede à Isabel…

Fui a uma exposição na baixa. Entrada gratuita. À saída, enquanto dava uma vista de olhos na mesa e contava as últimas moedas para comprar o livro ouvi esta conversa, entre dois visitante e a responsável pelos livros expostos para venda.

Porque haveria de ser gratuito? Um caderno de folhas agrafado mais cuidado, com melhor produção do que as folhas de exposição do museu, para mim eram indícios suficientes para entendê-lo como um objecto pago.

Falou com a naturalidade de quem não tem por hábito pagar a cultura, e a mesma segurança de não pensar duas vezes, levo ou não levo—como me acontece muitas vezes. A compra, é de facto para quem quer, simboliza uma intenção, uma vontade. Se fosse gratuito o lugar provável daquele livrinho seria, o banco detrás de alguns automóveis ou o fundo da mala onde os flyers ficam mais tempo a morar até voltarem a ser folheados.

Sabemos que há quem pede o catálogo ao artista, como há quem só vai ao teatro com convite. Mas nesta cultura implementada na borla será impossível os projectos encontrarem sustentabilidade. Não me parece despropositado que se pague um valor simbólico, aproximado ao custo de impressão, que não é de todo o investimento único, não pensamos sequer no tempo nem nos recursos intelectuais e criativos dispensados, que têm o seu preço, mas com que já ninguém conta porque provavelmente não foram mesmo pagos. Num 1 € não cabe o lucro da produção de um caderno de 20 páginas, mas talvez dê para deixar o carro no parque enquanto se dá um salto à exposição.