Category Archives: Fotografia

A interpretação

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Há já algum tempo assisti a um discurso de uma fotógrafa sobre o seu trabalho que me deixou muito desiludida. Apesar de gostar de alguns projectos seus que conhecia de publicações e exposições, assisti em poucos minutos a uma tal necessidade de explicação e legitimação, que derrubou todas as características com que identificava aquelas fotografias, que eram precisamente opostas ao que dizia e como dizia, características não limitativas de uma visão simplificada e fechada.

É comum ouvir fotógrafos explicar como tiraram as fotografias, que métodos e processos… os episódios detrás das fotos… mas, neste caso as coisas foram diferentes. Não só foi explicado o processo, mas as próprias fotografias, mais ou menos como “esta personagem simboliza a dualidade feminino e masculino, isto é um duplo sentido (…) ela aqui está a olhar para o abismo e a pensar num possível suicídio (…) o verde refletido na calçada remete para a luz das farmácias” etc. e tal… Conclusão: tinha uma fotografia desta autora na parede cá de casa, e após ouvir esta narração não voltei a olhá-la da mesma forma. Tudo aquilo que me intrigava naquela imagem ficou desmitificado e a nú de uma forma absolutamente estreita e básica. 

Produzir discursos sobre o trabalho desenvolvido pode ter destas coisas: não confio nas pessoas que dizem que os projectos têm que sobreviver sozinhos, sem necessidade de argumentos ou discursos… bem sei, que muitas vezes isso não chega, gostar também pode passar por compreender, por contextualizar. Ao mesmo tempo não deixo de me lembrar do texto da Susan Sontag “Against Interpretation”, em que esta defende que a interpretação existe sempre enquanto forma de empobrecimento e encerramento de significados. Muitas das vezes sinto isso. E é disso que falo aqui. Talvez esteja encontrado o motivo para que hajam tantas reacções negativas aos críticos e às suas interpretações semanais publicadas. 

 

Porto Ideal: uma proposta


A colagem do jornal Metro em jeito de convocatória.
A concretizar brevemente…

Lisboa Ideal: o projecto

Lisboa Ideal já existe em postal!




Lisboa Ideal chegaria à Amadora…
Nasci em Lisboa há 24 anos e 8 meses.
Vivo na Amadora há 24 anos e 8 meses.

Tour Sucesso I

No seguimento do texto anterior, ficou por dizer, o quanto a fotografia está afastada das Histórias da Arte Portuguesa, sendo esta uma omissão. A fotografia foi talvez o meio visual de maior eficácia na autentificação da mensagem do Estado Novo, tornando-se por isso favorita e recorrente; apesar desta presença marcante no desenvolvimento da imagética nacional, e da autonomia conceptual da Fotografia às Artes em geral, a afirmar-se nestes tempos, a ilustração leva sempre vantagem em estar presente quando se trata a afirmação de autores gráficos, cartazistas, designers-decoradores, paginadores, etc.
Mas, ficou sobretudo por mostrar de que imagens se fala.
Esta actualização fica prometida para breve.

A fotografia e a Exposição do Mundo Português

“ A Exposição do Mundo Português de 1940 pretendia ser, nas palavras do seu Comissário Geral, Augusto de Castro, a Cidade Simbólica da História de Portugal. Por outras palavras, optara-se por revisitar o Passado, aproveitando a oportunidade para exaltar também o Presente. Em 1940 a Guerra rugia lá fora, mas Portugal estava orgulhosamente em paz. O revivalismo continua. Fala-se da nova Ponte Vasco da Gama, quer-se um auditório Camões, há portas do Oriente em Centros Comerciais ditos Colombo. A Exposição do Mundo Português era o padrão, o documentário, a síntese pela imagem d(a nossa) história. No discurso inaugural, o Comissário acentuava que não era só a primeira vez que se realizava uma Exposição de História, como também era a a primeira vez, no Mundo, que se exp(unha), em imagens e símbolos, uma Civilização. A linguagem era apropriada à época e ao regime que então se vivia. O resultado, porém, era algo esquizofrénico. O discurso podia ser tonitruante e passadista, mas o que se podia admirar na esplanada dos Jerónimos era também a fina-flor dum certo modernismo em Portugal – a arquitectura de Carlos Ramos e Cristino da Silva, a pintura e design decorativo de Almada Negreiros, Milly Possoz, Fred Kradolfer e Carlos Botelho, a escultura de Canto da Maia e Hein Semke, etc. A memória que resta disto tudo é a Fonte Luminosa e os Cavalos Marinhos da Praça do Império, mais a reconstrução sólida do Monumento das Descobertas, de Cotinelli Telmo e Leopoldo de Almeida (os originais eram de estafe, estuque e papelão).”

“A Exposição do Mundo Português era um gigantesco álbum de imagens, um livro colorido de glórias, de figuras, de datas e de costumes destinado, como todas as fotografias, a desbotar com o tempo. Quase sessenta anos passaram. Os que a viram, já cá não estão, ou mal se lembram. Para outros, o excesso de retórica nacionalista mais as conotações fascizantes do evento eram recordações para esquecer ou, quando muito, para conservar num limbo de vergonha. Há, em Portugal, a tendência para apagar uma parte da história, enquanto se aviva outra parte. O sabor do ‘politicamente correcto’ não é de hoje. Mas a verdade é que não é possível des-conhecer aquilo que se conhece.”

“O SPN publica em 1934 um álbum fotográfico, Portugal 1934, uma mostra das obras e realizações do Estado Novo. António Ferro inaugurava assim a utilizição da fotografia como instrumento privilegiado de propaganda do regime e chama para a elaboração do seu álbum alguns dos fotógrafos portugueses mais importantes da época: Alvão, J. Martins, O. Bobone, J. Benoliel, H. Novais e Mário Novais, entre outros.
Em 1938, Salazar denomina-o de 1940 (Álbum panorâmico da obra do Estado Novo).
Finalmente, previsto no plano de publicações de 1938 para as Comemorações, como um Catálogo Monumental, ilustrado, da Exposição do Mundo Português, mas só editado em 1956, O Mundo Português. Imagens de uma Exposição Histórica. 1940.”

Textos do catálogo de exposição, Mário Novais. Exposição do Mundo Português (1940), Fundação Caloust Gulbenkian, Arquivo de Arte do Serviço de Belas Artes 1998.