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Em tempos de crise…

autografo

Enquanto esperava numa fila para comprar este livro e para ter a minha cópia assinada, lembrei-me que a única vez que tinha feito algo semelhente foi há cerca de 10 anos atrás… Recebi este desenho/autógrafo (na imagem) no salão de banda desenhada cá no Porto pelas mãos do ilustrador do “Aqui, à terra”, o mesmo autor do agora editado “Design em Tempos de Crise”. Estão ambos de parabéns, os editores e o autor, por este belo objecto de crítica de design em português. Já fazia falta…

Afinal existe. E é bonito!

“Este livro foi um processo demoroso e complicado, mas o António é uma pessoa que faz e, talvez por isso, incomoda.” As palavras são de Miguel Lobo Antunes na apresentação do útimo livro de António Pinho Vargas, no passado dia 16 de Setembro na Culturgest. Não me interesso por música contemporânea. Simplesmente, porque nada percebo, e claro, porque nunca me dediquei a perceber. Mas estes textos acompanharam-me durante vários meses enquanto aprendiz num atelier de design. Essa leitura continuada e fragmentada fez identificar-me a cada momento, a cada repetição. Foi essa possibilidade que realmente valeu a pena, não apenas ter mais um exemplo real para o meu portfolio. É um livro que fala de design sem o dizer, que nomeia os dilemas, os desejos, os maneirismos, os discursos, os episódios e a legitimação da criação. Apesar de continuar a não perceber nada de música reconhecia a cada ousadia do autor o quanto APV percebia de prática do design naquilo em as nossas disciplinas têm em comum.

Na apresentação, nas poucas vezes que se falou de design, fez-se sem o saber. “Afinal existe. E é bonito!”, “É um livrinho porque é pequeno, mas muito denso”. Bem sei que a atenção estaria longe de ser virada para o design, mas os momentos em que era evidente ser essa a matéria, foi clara a invisibilidade que os designers continuam a ter, mesmo em instituições culturais como é o caso. Os criadores que se revêem nas mesmas problemáticas que enfrentam estão de costas voltadas.

A capa deste livro, já comparada ao interface do site pessoal de António Pinho Vargas, foi claramente o elemento mais controverso ao longo do processo… posso dizer que foram desenvolvidas pelos menos mais duas opções finalizadas (sem contar com os inúmeros esboços) não direi melhores nem piores mas, certamente menos convencionais, onde o designer tem um papel equiparado aos restantes autores e desenvolve através do seu trabalho uma reacção que prolonga e desencadeia lógicas de representação consequentes ao texto (ainda que num diálogo à distância) e que se reflectem no objecto conseguido. O design assenta aqui, mais uma vez, no nível do “bem feito”, “com bom aspecto”, “que não compromete”. É uma visão acanhada e preguiçosa mas fácil de absorver e enraizar numa prática diária de atelier. Não aconselho este livro pela capa (até me ficaria bem!) mas pelo texto que apresenta. Uma perspectiva aguçada e perspicaz, que penso poder ser seguida para além da música.

A dado momento, Paulo Ferreira de Castro a quem coube a formalidade da apresentação diz qualquer coisa como, a música e a arte não se legitimam sem ser pela resposta do público. Apesar de não ser consonante com a resposta a reacção epidérmica que tenho de imediato faz-me reconhecer toda aquela evidência: o design, aquele design, ao nunca ter sido mencionado, só estaria a querer dizer uma coisa, que ainda não tinha sido legitimado.

A minha constatação deste desconhecimento de competências e saberes, num momento em que tanto já se falou de transdisciplinariedade, fez-me recordar outro momento alto da apresentação, em que a propósito de discursos legitimadores e de um autor para mim desconhecido, se falou no divórcio do criador com o público, do velho fetichismo do génio incompreendido muitas vezes perpetuada pelo próprio criador, e do favor que o compositor faria à música ao isolar-se do mundo público para criar, tudo considerações do próprio.

Dúvidas mais saciadas se o nome deste livro fosse Cinco Conferências, Especulações críticas sobre a História do Design do século XX.

Parcerias…

“But it’s definitely the best when we play together. Instead of one of us looking over the other’s shoulder…
It’s also rare for the partnership to be two designers who clearly consider the other to be a better version of herself…
I tkink that can be attributed to the female dynamic. Men are more egomaniacal in this arrangement, and women are more insecure. In the male partnerships we know, the conflict is about one of them feeling that he does more work, while the other partner is not holding his weight. With us, is the opposite”
Emily Oberman & Bonnie Siegler (mas podia muito bem ser Joana & Mariana)

A profissão de professor

“A profissão de «professor», também este um termo algo opaco, suporta todas as nuances possíveis entre, num extremo, na forma de vida rotineira e desencantada e, no outro, um elevado sentido de vocação. Compreende numerosas tipologias que vão desde a do pedagogo destruidor de espíritos à do Mestre carismático. Imersos como estamos em formas de ensino quase inumeráveis – elementar, técnico, científico, humanista, moral e filosófico –, raramente nos distanciamos o suficiente para reflectir sobre as maravilhas da transmissão de conhecimento, os recursos da falsidade e aquilo a que chamaria, à falta de um termo mais preciso e concreto, o mistério da função. Quando se dá a um homem ou a uma mulher o poder de ensinar outro ser humano, onde reside a fonte da autoridade? Por outro lado, quais os principais tipos de resposta por parte dos discentes?”

As Lições dos Mestres, George Steiner

depois da licenciatura acabada…

é este o novo livro de cabeceira. neste momento o capítulo “how to find a job” é o mais lido.

agora em livro











by Schriftguss A.–G. vorm. Bruder Butter Dresden, Alemanha.
Representados em Portugal por Polonio Basto e Cª., Porto, catálogo de 1928.

Prenda de anos (ponto)



“Porque, no fundo, eu confio que o mundo não possa ser ilógico, não possa estar mal organizado, que as coisas sucedem por qualquer motivo. Como quando chego ao fim de um cálculo matemático, se ele não dá certo, alguma asneira fiz pelo caminho– multipliquei mal, somei mal alguma fracção, alguma coisa fiz. E, portanto, se algo me sucede na vida que seja realmente mau, que atrapalha tudo– em alguma coisa errei na minha maneira de ser e só me convém e compete reflectir sobre isso para ver se para o futuro não faço nada semelhante, sempre achando que posso fazer, que não tenho imunidade nenhuma. Tenho que ser ao mesmo tempo um ser forte com a noção exacta da minha fragilidade. Isto é, querido amigo, no fim voltamos à nossa história do paradoxo.”

Agostinho da Silva, 1985

Porque admiramos!

“Um exemplo impressionante (da paralisação de toda a dinâmica do novo) porque geral: a ausência de intensidade na admiração, em Portugal ou, talvez mesmo, a falta de verdadeira admiração na relação com uma obra, um autor, um acontecimento. Se alguém exprime uma admiração desmedida, ou «excessiva», o seu entusiasmo é logo considerado suspeito. Como se aquela expressão levasse o sujeito admirativo a um nível superior intolerável. Ora precisamente, a admiração dá força, induz intensidades: por osmose, o admirador participa nas virtudes do admirado.
Por isso a admiração é quase sempre de fachada. Os portugueses não sabem admirar, porque não sabem perder a cabeça de admiração.”

José Gil, 2004

Porque gostamos de citar!

“Citar um autor nacional, um contemporâneo, um amigo ou inimigo, é, entre nós uma raridade ou uma excentricidade como usar capote alentejano. A referência nobre é a estrangeira por mais banal que seja, e quem se poderá considerar ausente de um reflexo que é, por assim dizer, nacional? Vivemos todos como se não concedessem o crédito– um crédito vivificante e não a simples utilização partidária que fazemos dos outros– à produção cultural portuguesa, como se não concedemos à moeda em época em tempo de crise. Vivemo-nos sob o modo de um desenraizamento histórico singular que só na aparência é negado pela exaltação sentimental com que nos vivemos enquanto portugueses.”
Eduardo Lourenço, 1978