Category Archives: Publicações

Victor Palla

Thomaz de Mello (estúdio Tom)

Sebastião Rodrigues

Prenda de anos (ponto)



“Porque, no fundo, eu confio que o mundo não possa ser ilógico, não possa estar mal organizado, que as coisas sucedem por qualquer motivo. Como quando chego ao fim de um cálculo matemático, se ele não dá certo, alguma asneira fiz pelo caminho– multipliquei mal, somei mal alguma fracção, alguma coisa fiz. E, portanto, se algo me sucede na vida que seja realmente mau, que atrapalha tudo– em alguma coisa errei na minha maneira de ser e só me convém e compete reflectir sobre isso para ver se para o futuro não faço nada semelhante, sempre achando que posso fazer, que não tenho imunidade nenhuma. Tenho que ser ao mesmo tempo um ser forte com a noção exacta da minha fragilidade. Isto é, querido amigo, no fim voltamos à nossa história do paradoxo.”

Agostinho da Silva, 1985

Porque admiramos!

“Um exemplo impressionante (da paralisação de toda a dinâmica do novo) porque geral: a ausência de intensidade na admiração, em Portugal ou, talvez mesmo, a falta de verdadeira admiração na relação com uma obra, um autor, um acontecimento. Se alguém exprime uma admiração desmedida, ou «excessiva», o seu entusiasmo é logo considerado suspeito. Como se aquela expressão levasse o sujeito admirativo a um nível superior intolerável. Ora precisamente, a admiração dá força, induz intensidades: por osmose, o admirador participa nas virtudes do admirado.
Por isso a admiração é quase sempre de fachada. Os portugueses não sabem admirar, porque não sabem perder a cabeça de admiração.”

José Gil, 2004

Porque gostamos de citar!

“Citar um autor nacional, um contemporâneo, um amigo ou inimigo, é, entre nós uma raridade ou uma excentricidade como usar capote alentejano. A referência nobre é a estrangeira por mais banal que seja, e quem se poderá considerar ausente de um reflexo que é, por assim dizer, nacional? Vivemos todos como se não concedessem o crédito– um crédito vivificante e não a simples utilização partidária que fazemos dos outros– à produção cultural portuguesa, como se não concedemos à moeda em época em tempo de crise. Vivemo-nos sob o modo de um desenraizamento histórico singular que só na aparência é negado pela exaltação sentimental com que nos vivemos enquanto portugueses.”
Eduardo Lourenço, 1978