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A fome

©Tiago Baptista

 

“What it all boils down to, what only ever really matters the most when it comes to Contente, is Intent. And I mean that. With all my heart.” Chip Kidd, The Learners (Content as Sincerity, pág. 254)

“O importante não é o ser, mas o parecer”
Um moralista, Fevereiro de 2008

 

Durante algum tempo, nas viagens de regresso do fim de semana, ouvi com regularidade um programa da Antena 2 chamado Questões de Moral da autoria de Joel Costa. Apesar de não acontecer por minha iniciativa, mas por ser essa a escolha da minha boleia, comecei a interessar-me pelo programa, pelos seus temas, abordados naquele estilo erudito, mas sobretudo por curiosidade, porque a moral era um tema muito querido daquele fiel ouvinte. Curiosa que estava por compreender melhor a estranha pessoa que guiava ao meu lado, ouvia com atenção, e não raras vezes me ocorriam as várias discussões em que o tema era abordado na prática de design e em que tinha participado. 

A moral e a ética, tantas vezes usadas como cartada final nos julgamentos sobre os outros. Sempre me fez confusão a forma como nessas conversas facilmente se caía na tendência para moralizar e julgar decisões, bem diferente do que pode ser uma visão crítica sobre nós e os outros. Muita gente vem logo com a bandeira levantada dizer que são questões muito importantes que têm de ser faladas, ao que não me oponho, obviamente, mas às vezes faladas parece querer dizer denunciadas.Trata-se muitas vezes de mera moralização beata, sem nunca haver uma construção crítica. E parece-me estranho ouvir constantemente as palavras moral e ética a dado exemplo de uma prática que se considera ser “a correcta”, sem lugar para dúvidas. Quando muitas vezes ouço as palavras moral e ética antes ou depois de design, reparo que na maior parte das vezes tem como único objectivo a distinção entre aquilo que é correcto e aquilo que é errado. “Eu é que tenho razão. Ele agiu mal. E eu tenho de dizê-lo.” É a condenação de um par tido como moralmente superior sobre o outro. Dois lados, o bem e o mal. No fundo é como a parábola do homem que rouba a maça e é advertido pelo moralista. O moralista diz-lhe “Tu estás a roubar. Tu és um ladrão.” Mas quando o mesmo moralista é apanhado pelo outro a fazer o mesmo, a resposta dele é “mas eu tenho fome!”.

Quando comecei no design profissional assustei-me com a moral do mercado. Percebi a enorme diferença em relação ao meu método de trabalho habitual. Não habituada a ter uma rotina no trabalho, a minha dificuldade era a distribuição de tarefas no meu tempo diário, semanal… Perante a lógica de que as horas se pagam, o natural era distribuir o tempo de acordo com os ganhos da empresa. Os melhores trabalhos, isto queria dizer, aqueles em que se deveria perder mais tempo, são dos clientes com mais dinheiro. Ou seja, tempo e dedicação a um determinado projecto deveria assim ser equacionado de acordo com a carteira do cliente. Nunca me senti muito confortável com esta lógica de trabalho o que me levou a alguns momentos de insatisfação.

A moral mais do que teoria normativa da prática do design, ou código de conduta para a avaliação das práticas alheias é, antes disso, um domínio complexo, no design, que procura a compreensão dos problemas relativos à prática. Não pode, por isso, ser relativo a costumes antigos e estanques, mas uma reflexão analítica e viva, e isso sabemos bem, vai muito além daquilo que é ou não correcto ou permitido. Para alguns designers isto não é uma questão. Este post é uma questão de moral, porque na verdade todos temos fome.

 

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