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A boa justificação


Anónimo, 1974   

“É da boa justificação que depende não somente a rapidez da impressão como até a própria perfeição do trabalho, quer ele seja de obra de livro, quer de fantasia. (…) Na arte tipográfica, a composição de cheio é o primeiro exercício prático do aprendiz-compositor, depois de saber bem a caixa e distribuir desembaraçadamente. (…) Há compositores, não obstante a sua longa prática, que espacejam muito bem, e, todavia, não sabem justificar.”
– Manuel Pedro, Guia profissional do tipógrafo, 1949

Agosto é um mês muito quente. Agosto é mês de férias. Em Agosto não apetece trabalhar. Boas justificações. Precisamos de justificações? Passamos a vida a arranjar constantes justificações para aquilo que somos e para aquilo que fazemos. Não fui avaliada em Setembro porque resolvi ir apanhar fruta para a Usseira. Muitas vezes não são mais do que meras desculpas porque queremos adiar e porque temos medo. Constantemente arranjamos boas (sempre boas) justificações para tudo aquilo que corre mal, não sabemos ao certo porquê: a impressão que nunca corre como o desejado, as expectativas que nunca são vingadas, o trabalho que se atrasa constantemente, aquilo que queremos é sempre diferente do que conseguimos.
Justifica-se sempre de inúmeras formas sempre dizendo que a culpa é sempre de determinados factores, factores invariáveis e com os quais não contávamos.

Uma das inúmeras justificações no comportamento português tem origem no Salazarismo. Somos assim porque o Salazarismo nos tornou assim. José Gil diz que o salazarismo foi um período da anulação da existência individual, e que actualmente se passa o contrário, procuramos reconhecimento e formas de identificação, de expressão, mesmo que forçadas: “a aprendizagem da democracia é também uma aprendizagem da expressão”. Depois de anos de invisibilidade, nasceu então um novo tipo que pretende tornar visível uma prática até então invisível. Tornar visível não tem que significar necessáriamente promover.

Ainda hoje, há muitos designers, com discursos, semelhantes à opinião de Cândido Costa Pinto, em 1941. Dizer que os designers têm que ter uma cultura vastíssima, quem não concorda com isto? Mas como se chega até aí? Existem os caminhos comuns: ler muito, ou dizer que se lê muito, demonstar que se sabe o que se deveria ler, responder a perguntas preguiçosas que explicam que lemos, vimos e ouvimos aquilo que é suposto. Corresponder inteiramente à ideia de cultura, que não é mais do que, uma redução partilhada por um grupo que se pretende uniformizado. Um amigo, diz muitas vezes: mas vocês só ouvem música design? Música design, significa, neste contexto, música da moda. Há uma resposta muito boa para isso, ensinada no primeiro ano nesta escola: um cavalo e um burro podem ter mais semelhanças entre si do que dois cavalos ou dois burros.
Ter uma cultura vastíssima é muito mais complicado do que aquilo que à partida pode parecer. É assustadora a preocupação de saber tudo. Esta é uma justificação sincera para o que não sabemos: se tivessemos que estar sempre a par de todas as novidades da praça e reagir entusiasticamente, estariamos sempre num estado constante de histeria. Porque tudo pode ser realmente bom e importante. Mas é fisicamente incomportável.

A cultura é como as pessoas, muito mais complicada do que uma lista inumerada de características mais ou menos previsíveis. Cândido Costa Pinto diz ainda que temos que ser Psicólogos, até defendemos a psicologia profissional, ou seja, como auxiliar à crítica, a psicologia profissional conseguiria por os designers a falar das coisas. Isto não seria inteiramente mau. Agora tentarmos ser psicólogos dos outros (público, clientes) é que não!

Outro nome para a justificação, poderia ser o choradinho. A argumentação de todos os problemas e angústias profissionais, quando trazida a público, sujeita o designer à vitimização do tempo, da técnica, do orçamento, do cliente, do público, dos contextos. Toda a história, todo o trabalho, tem problemas infindáveis. Muitos deles serviram de motor de arranque para os superar activamente. Quantas tragédias não serviram de viragem nestas histórias? Sabiamente, alguém dizia que, quando se está bem a tendência é manter-nos confortavelmente no nosso cantinho, deixamo-nos ficar… Se não estamos, e não cultivamos esse sofrimento, tentamos sempre fazer melhor.

Discursos invisíveis

A dicotomia Bem/Mal, Ordem/Desordem, era muito utilizada nas linguagens do Estado Novo. Neste período, os cartazes eram, por um lado, bastante imediatos, com palavras de ordem fortes e determinadas; e por outro, as ilustrações eram narrativas e faziam uso de elementos simbólicos muito queridos ao regime, como os elementos religiosos, nacionalistas, rurais… As mensagens são claras: o Estado Novo resolve os problemas segundo uma ordem racional, política, técnica e económica. José Gil, no seu livro, Salazar: a retórica da invisibilidade, fala no discurso salazarista como narrativa da salvação, dizendo que as imagens construídas são nuas no sentido em que estão separadas da linguagem verbal que lhe correspondem. Ao mesmo tempo que o discurso salazarista apelava para a cura do país, também se proponha a renová-lo, a modernizá-lo. Por isso, António Ferro, sabia que uma imagem de modernidade formal era importante na transmissão da Política do Espírito. Assim, chamou para materializar este projecto as figuras marcantes do Modernismo Português.

O discurso do Estado Novo assentava numa lógica de cura, o país tinha problemas que eram resolvidos com rigor e racionalidade. De alguma forma, o Modernismo foi usado neste sentido. Se quisermos analisar a estética do Estado Novo sobre a direcção de António Ferro, de um ponto de vista meramente formalista, e quando comparado a períodos posteriores (pós- 25 de Abril), podemos concluir que, a produção gráfica deste período é bastante emblemática e são exemplos paradigmáticos. Ainda hoje, há um enorme saudosismo em relação a objectos gráficos deste período. Porquê? 

É estranho: se por um lado lidamos muito mal com este período da nossa história (temos medo de citar, de escrever, com medo de sermos mal interpretados politicamente) por outro lado há em nós um certo enternecimento quando nos deparamos com objectos de uma casa portuguesa adormecida num Portugal rural e saloio.
“Não é possível construir de uma imagem nacional asséptica, à margem de toda a hipótese ideológica, ou, se se prefere, de qualquer preconceito explícito. Mas, justamente por isso, nada é mais necessário do que rever, renovar, suspeitar sem tréguas as imagens e os mitos que nelas se encaram inseparáveis da nossa relação com a pátria que fomos, somos, seremos, e de que essas imagens e mitos são a metalinguagem onde todos os nossos discursos se inscrevem” – Eduardo Lourenço

Fala-se na impossibilidade de criarmos imagens sem ideologia, e como produzimos imagens fragmentadas sobre nós (indíviduos e país). Fragmentamos a identidade nacional, ou sobrevalorizando certas partes, mediante os projectos com que nos deparamos. Menosprezamos grande parte da nossa produção ao mesmo tempo que enaltecemos e importamos outras, muitas vezes pela única razão de serem nossas ou por serem internacionais. Isto poderá justificar-se com um “desenraizamento histórico singular que só na aparência é negado pela exaltação sentimental com que nos vivemos enquanto portugueses” – Eduardo Lourenço.

Olhando para as imagens deste período podemos pensar na relação entre design e vanguarda. Os melhores exemplos deste período levam-nos a pensar o quanto o salazarismo era uma empresa com uma imagem sólida e bastante convincente. Uma empresa de sucesso. Uma estrutura forte que usava como principal forma de manipulação e, segundo José Gil, o silêncio. Nem mais. Parece contraditório. Salazar raramente se retratava nas inúmeras imagens produzidas nesta época. A construção das mensagens vinha maioritariamente de jogos de significados, que apesar de pobres na simbologia, porque repetitivos ou demasiado previsíveis, eram de facto complexos na estrutura de leitura. A leitura contrapunha dois cenários, Bom/Mau, perguntando ao espectador qual preferia. A desgraça ou a salvação? O caos ou a solução? A solução/ resposta surgia de imediato. A  magem nua que se aloja no inconsciente, não é imagem visível, conduz a um tipo de pensamento e por sua vez directiva de acção muito imediato e “esclarecido”. Ainda hoje, e também de uma forma inconsciente, está alojada em muitas formas de comunicação e de construção de narrativas/linguagens gráficas, tornando visíveis discursos invisíveis.

Porque admiramos!

“Um exemplo impressionante (da paralisação de toda a dinâmica do novo) porque geral: a ausência de intensidade na admiração, em Portugal ou, talvez mesmo, a falta de verdadeira admiração na relação com uma obra, um autor, um acontecimento. Se alguém exprime uma admiração desmedida, ou «excessiva», o seu entusiasmo é logo considerado suspeito. Como se aquela expressão levasse o sujeito admirativo a um nível superior intolerável. Ora precisamente, a admiração dá força, induz intensidades: por osmose, o admirador participa nas virtudes do admirado.
Por isso a admiração é quase sempre de fachada. Os portugueses não sabem admirar, porque não sabem perder a cabeça de admiração.”

José Gil, 2004