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Cotas ou notas marginais

Durante anos Portugal viveu uma ditadura, já sabemos. Durante anos, os designers (artistas/ilustradores gráficos) sabiam que nunca poderiam utilizar como linguagem, a clareza ou transparência de opiniões, porque ou perderiam trabalho, ou pior, seriam vítimas de perseguições políticas. Isto manifestou-se ao nível individual, primeiro que tudo, e consequentemente alastrou-se à prática. Só um indivíduo realmente livre poderá fazer um trabalho igualmente livre. Muitas vezes, os caminhos encontrados para fugir a esta encruzilhada, foram, como já vimos, caminhos paralelos ou marginais, feitos a partir de pequenos apontamentos mais ou menos visíveis. Nunca se podiam tomar caminhos contrários.
Com o 25 de Abril muita coisa muda, o discurso já não precisa de ser tímido ou disfarçado, e pode finalmente gritar, manifestar-se, impor-se. Acontece que, num país em que durante anos foi negado este direito, e depois da excitação inicial, passa naturalmente por uma adaptação a uma nova realidade. Somos finalmente livres, mas o que vamos fazer com o novo estado que adquirimos? Adquirimos realmente? Ainda há tanta coisa para finalmente poder reivindicar…
O design torna-se assim ferramenta da acção política e em nenhum momento da nossa história tinha­mos assistido a tamanha manifestação de opini­ão. A rua torna-se o espaço por excelência da expressão gráfica, todos os espaços, são espaços de manifestação. Recorre-se também a outros suportes diferentes do cartaz, como as pinturas murais, os stencils, os autocolantes… Não houveram regras e inclusivé os monumentos públicos foram usados como veículo de acção e propagação. Esta explosão de grafismo de rua é resultado, também, da escassez de meios e porque geralmente este tipo de comunicação é rápido e económico. Muitos destes cartazes surgiram por iniciativa individual, numa altura em que, produzir mensagens visuais tornava-se então, uma atitude tão espontânea como falar. Nos cafés, nos locais de trabalho, nas ruas, surgiam mensagens de populares e cidadãos anónimos, que, muitas vezes manualmente, escreviam as mensagens mais apaixonadas, cómicas e políticas. Além do consequente desenvolvimento de uma corrente vernacular, inconsciente, que ganhava características muito próprias e populares, nasciam também inúmeros cartazes de todos aqueles autores que até aqui, estavam mais ou menos encobertos, como é o caso de João Abel Manta. Num cartaz de 1975, uma nova versão dos cartazes de propaganda do SNI, ao Algarve, está escrito Turismo novo e SNI tem um riscado por cima. Abel Manta explora precisamente esta nova realidade pictórica da paisagem portuguesa, coberta de inscrições nas paredes. Este projecto mostra ao mesmo tempo uma reflexão sobre aquela que era a publicidade do regime (não a esquece) para a partir desta mostra a nova situação do país, proclamando também ele (autor e cartaz) os mesmos ideais políticos.
Esta viragem, até à altura nunca experimentada, permite aos designers desenvolver novos tipos de linguagem e usufruir de códigos que não possuíam. Isto levou tempo. Este período, imediatamente posterior ao 25 de Abril, foi por excelência, o período da inscrição, depois de anos de não inscrição. Mas podemos realmente, e depois de tantos anos de ditadura, passar para um cenário oposto? Parece-nos que, esta vontade de inscrição existiu de facto, nas inúmeras manifestações populares, mas passada a excitação/desilusão inicial voltamos ao que nos ensinaram ser. Ainda hoje, subsiste em nós esse esmagamento.
Porque será mais fácil escrever sobre o 25 de Abril? Talvez pela construção idealizada com que imaginamos os acontecimentos e, esta idealização, que temos sobre este determinado momento, que não vivemos, inspira-se sobretudo no material visual deste período. Este material conta histórias e vontades.

“No entanto, a libertação da ditadura deixou um vazio que viria a ser preenchido pela busca duma identidade nacional autêntica — redescobrindo ou reinventando a história de Portugal, desembaraçando a teia das diferenças étnicas e culturais, que tinham estado escondidas atrás de um verniz espesso de ideologia nacionalista. (…) Temos, no entanto que reconhecer, que a reflexão sobre a identidade nacional tem sido interpretada por vezes literalmente, pelo uso de capas com brilho para reflectir a vaidade do cliente — ou a cara do designer. (…) Há vinte cinco anos, o director de uma agência de publicidade poderia informar que não havia mercado para tal, no sentido moderno (em contrapartida houve e ainda há, felizmente, bastantes mercados no país com verdadeira fruta e legumes, não normalizada, porém belíssima de se ver e ainda melhor de se saborear.” Robin Fior, 1999

Com a entrada de Portugal para a CEE, para o Mundo que lhe estava vedado, muitos temeram a normalização. Com o desenvolvimento tecnológico, as primeiras escolas de ensino de Design de Comunicação, separado das artes visuais, o design português finalmente podia olhar lá para fora e tentar importar material e estilos. Esta revolução torna-se então digital. O design é um indicador do estado das coisas e da forma como a sociedade absorve a inovação(ou talvez seja a novidade), porque tenta sempre actualizar-se. E em Portugal, cresce a obsessão por compensar o tempo perdido com a ditadura Nacionalista. Perde-se gradualmente a militância, a euforia dá lugar à depressão e à quebra dos laços de identidade, que anteriormente eram forçados em simbologias nas quais já não nos revemos, e às quais tentamos escapar.