Tag Archives: revista K

K, parece impossível!

IM001745

O editorial conquistou-nos à primeira leitura. Faz sentido se pensarmos num discurso, muito difundido em design, que defende acima de tudo a invisibilidade, em que se cumprem propósitos sem levantar controvérsia. Então, somos meninos bonitos bem comportados, fazemos aquilo que nos mandam com medo de perder alguma coisa… O que, na verdade acontece mais a quem tem menos… é quando temos pouco que é mais difícil arriscar—e é o que acontece com grande parte de nós. A revista K sempre se portou mal e fez o contrário disto tudo. Por isso, ou talvez não, durou três anos.

Num Maio quente passamos alguns dias por Lisboa a pesquisar para a dissertação de História e Crítica do Design. Decidimos que queríamos fazer sobre publicações do século XX, talvez porque na altura alimentávamos a ideia de fazer o nosso próprio projecto editorial—qual é o designer que não teve já esse sonho? Na Hemeroteca de Lisboa muito do tempo foi passado a descobrir publicações, mais ou menos antigas, mas quase todas desconhecidas para nós… Fazíamos pesquisa por temas, ou por autores-chave—autênticos tiros no escuro—uma estratégia definida no local, depois de um arquivista da casa nos ter dito que aquilo que nos propunha-mos fazer correspondia, simplesmente, a 12 Km de estante. Perdemo-nos durante dias só a olhar para páginas e capas, escolhemos, por razões distintas, cinco publicações. Uma delas, encontrada na secção de periódicos de temas variados— a K—foi certamente a publicação que mais nos influenciou para além do trabalho inicialmente previsto. A K foi ainda matéria para outros projectos— reformulação de identidade gráfica, plataforma online de divulgação dos conteúdos originais, e um manifesto contra—que desenvolvemos nesse ano.

A K era dividida em três partes, permitindo ter três géneros de revistas dentro de uma, ambas na mesma família mas com níveis diferentes. A primeira parte, um aperitivo de textos breves e ligeiros onde existem secções com os títulos: Delírios; Traduções Selvagens; Sair com…; ou O bufo—sequência de imagens televisivas numa nova narrativa visual sugerida pela edição da sequência e da legendagem.
A segunda parte chamava-se precisamente A Revista—adquire uma componente mais próxima de uma publicação convencional—só neste momento é apresentado o índice da publicação. É no entanto, uma sátira ao que se entende por revista: um conjunto de páginas, com lugar para editoriais, entrevista, reportagem, moda, crítica… Talvez seja a parte em que as opções de escrita menos contaminam o conteúdo que, neste caso, se torna mais controlado pelas próprias colaborações. No entanto, o tipo de entrevistas é tudo menos convencional, tendo por exemplo a entrevista a Mário Cesariny  “que acaba aos gritos” entre um “entrevistador anónimo” e um “poeta furioso” com o título jornalisticamente incorrecto “Honestíssimas, meritíssimas putas!”
Finalmente a terceira parte da KColunas—tem secções como Dinheiro; A arte; A filosofia; A família; A alma; A política

A capa do primeiro número antevê o artigo e fotografias do interior—uma fotorreportagem de Inês Gonçalves, com os miúdos da colónia O século na praia. O cuidado fotográfico sempre foi uma das características constantes na K, destacando-se pela beleza formal e pouco convencional dos enquadramentos. Na maior parte das vezes, as capas são uma extensão da fotorreportagem daquele número, mas não apenas a repetição da melhor fotografia.
Apesar das secções serem mais ou menos constantes entre números, os conteúdos são muito variados. Desde um Manual da Vingança, até às Rapidinhas culturais e uma ilustração explicativa do que fazer com “o Público que não consegue ler”.
Houve sempre lugar para a experimentação, por exemplo este número em que fazem um grande destaque na capa ao preço da revista “500 paus” ao lado daquele artista que aos 26 anos a K considera um génio—Rui Chafes. Outro exemplo: aqui o logo aparece substituído por um “rectângulo vermelho”. A K teve dois logos, o segundo muito mais interessante, já sem o K old style, numa letra sem serifas e sem contraste de peso.

A K foi uma fanzine sofisticada, cuja amplitude de distribuição e vendas permitiu apresentá-la como revista, o que também veio subverter todas as noções estabelecidas para uma publicação deste género. É o design que confere à K um carácter menos marginal, porque é cuidado e elegante nalguns casos; noutros livre e popular, com tratamento forte e gritante. Parte de um universo muito pessoal, familiar, restrito ao grupo dos seus colaboradores e por isso mesmo chega, nalguns casos, a ser quase um monólogo.
Aquilo que me faz gostar da K e pensar nela como um projecto editorial singular, é a provocação e a energia. Mesmo que muitos dos artigos me irritem, me incomodem… Reconheço essa inteligência e persistência por assuntos da actualidade, do seu tempo, pondo o dedo na ferida quando lhe apeteceu. A K não foi uma revista intemporal, mas uma revista que retrata bem uma época e uma geração que não foi a minha e que já conheci tarde.

Goste-se ou não do estilo, a K cumpriu bem os objectivos a que se propôs no primeiro editorial, nunca foi objectiva e isenta—assumiu sempre os seus ódios e as suas paixões—os conteúdos são controversos e políticos, mantendo a fasquia do humor ao mesmo nível, quer para assuntos mundanos, entrevistas, temas sérios e políticos. Desafiava a autoridade e os lugares comuns de uma determinada cultura, quis incomodar, chatear. Foi um projecto contra-corrente ao pensamento jornalístico vigente, quanto a eles, um pensamento que é comedido, indiferente, sem posição, um jornalismo, mais ou menos tanto faz.  Não foi revista de consensos e não se levou demasiado a sério. Uma qualidade. Será impossível?!

k A revista impossível [Outubro 1990-Abril 1993]

Director: Miguel Esteves Cardoso;

Editor artístico: Luís Vilaça (existem diversos editores

de acordo com cada conteúdo)

Projecto gráfico: João Botelho

Propriedade: C.C. & B. edições limitada.

Fotocomposição: Trama, artes gráficas

Impressão: Lisgráfica

Tiragem: não referida